21 de outubro de 2008

Pranto que vale uma ilha


Soundtrack: Joshua Radin - What if you

"É difícil dizer a verdade, pois existe apenas uma verdade, mas ela é viva e, por conseguinte, tem um rosto que está sempre mudando."

Kafka em "Cartas a Milena"

Milena, doce Milena, deixaste de ser a musa passada de Kafka e te fiz minha musa. Mas hoje quando acordei, confesso que não pensei em você. Pela primeira vez nessas últimas semanas, pensei em mim. Na verdade já fui dormir com essa sensação: voar sozinho. Ontem ao andar pelas ruas dessa cidade suja, olhei para todos os lados em busca de sua face menina e pude então descobrir que numa certa época da vida todos temos que jogar fora um pouco de amor. Como o pipoqueiro que olha para os lados e não acha quem compre sua pipoca. Então no outro dia o que ele faz? Joga a pipoca fora e começa tudo de novo. Qual o problema? Não há problema, ora! Mas nesse caso, Milena, você jogou fora todo seu amor e não quis me avisar. Não avisou que sua pipoca era nova... E eu comendo o piruá. Agora chegou minha vez de jogar um pouco fora tudo isso que tem doído os dentes na hora de morder.
Vou comprar uma ilha e esse é mais um dos motivos para te escrever essa carta. Eu sei, você dirá que está fora da estação, que é mais cara nessas épocas, mas vou comprar mesmo assim. Isso você sempre fez bem, mesmo que não me amasse mais, sempre conseguiu cuidar bem desse homem aqui. Vou para essa ilha, ficar por lá algum tempo até que consiga lembrar como ser alegre novamente, até que consiga hastear uma daquelas bandeiras para minha nova pátria: ama-me ou deixa-me. Por hora, digo que o sentimento que invadiu meu peito foi o melhor dos últimos dias. Talvez só agora eu esteja sentindo o que você sentiu desde não sei quando. Ah, chega a até cansar o coração, não é?! Estou pensando em vários planos: quero andar descalço, escrever poemas por lá, ouvir o tilintar só do meu copo com uma bela garrafa de vinho, fazer uma casa e depois pintar de vermelho. Enfim, talvez nem sempre mande notícias, mas sempre mandarei um poema nem que seja dizendo que tenho saudade do nosso futuro. Afinal, tudo que se ama é um pedaço do nosso ser. Talvez um dia, Milena, você aprenda-me, você me chame, você conjugue-me. Agora, ouço Noel Rosa e ele canta para mim que "quem acha, vive se perdendo". Estou indo me achar, me perder, te perdi. Estou aqui para dizer: adeus, moça bonita!

Um comentário:

Spinelli disse...

Adeus, Milena

Milena, doce Milena
Fiz de ti minha musa
Mas parei de pensar em ti
Agora penso em mim
Vôo sozinho

Jogo fora o que sobrou
De todo amor disponível
Jogo fora a pipoca
Que não foi vendida
Jogo fora o amor
Para não comê-lo frio
Para não ficar com piruá
Nada doído entre os dentes

Vou comprar um ilha, Milena
Mesmo fora de época
Mesmo fora de estação
Mesmo sendo mais cara
E me vou para essa ilha

Ficarei por lá um tempo
Até ser alegre novamente

Andarei descalço
Escreverei poemas
Beberei sozinho do meu vinho
Farei casa e pintarei de vermelho

Talvez nem mande notícias, Milena
Só escreverei poemas
Quaisquer, não importa
Poemas que falem do futuro
Poemas que falem de saudade
Da saudade de um futuro, quem sabe

Talvez, Milena, um dia mudes
Um dia me chames
Um dia me aprendas
Um dia conjugue-me

Milena, pobre Milena
Adeus, moça bonita!


Beijos