29 de novembro de 2014

A teoria das bolachas quebradas



Soundtrack: Tristan Prettyman - Say Anything

Por algum tempo cheguei a pensar que quando a vida parece não concordar com nossos planos, o melhor era simplesmente aceitar. “Siga em frente” é o que sempre dizem as placas durante o nosso caminho. Poucas são as de retorno e ainda assim, quando é preciso retornar numa estrada, temos que seguir em frente até algum ponto para, então, conseguir voltar. Deixar passar...Tudo na vida nos direciona para o que vem. Desde criança, quando deixamos a bicicleta com rodinhas de lado, seguimos em frente em duas rodas e nunca mais queremos saber da fragilidade dos desafios passados. Quando somos adolescentes, fazemos uma prova e se formos bem, nunca mais queremos saber o que erramos em uma questão. E então, viramos adultos, numa terra onde a regra do seguir em frente se torna mais banal do que nunca. Perdeu o emprego? Siga em frente. Terminou um namoro? Siga em frente. Seu carro foi roubado? Siga em frente. Os sentimentos se atropelam mais ainda e a única coisa que desejamos em alguns dias é uma ponte, que nos faça atravessar qualquer abismo mais rapidamente. A verdade é que a gente sempre quer pular para a parte feliz de qualquer história. Ninguém quer ficar para trás... Vamos ao ritmo das tecnologias, competindo programas que façam coisas mais geniais do que os antigos. Vamos no ritmo dos livros em tablets, dos cigarros sem cheiro, da pressa no trânsito, das entregas pela internet. Mas ainda assim, com tanto futuro a vista, ainda temos medo da tristeza. Temos medo daquilo que abate a gente numa sexta à noite, numa quarta à tarde, num por do sol ou em uma música. A gente tem medo da solidão e, assim, seguir em frente, parece sempre o melhor meio de não estar em casa quando ela tenta chegar. Às vezes, me pego ansiosa tentando visualizar um futuro, só que, ao mesmo tempo, tenho alguns medos quando ouso falar do passado. É mais fácil assumir que vamos errar um dia do que discutir sobre o que já erramos. É sempre mais fácil encarar a alegria, do que a tristeza com uma pitada de ausência. O que a gente nem sabe é que até mesmo a ausência é algo que está sempre conosco. Estranho né? Estamos sempre aqui no presente e ao mesmo tempo chegamos a desejar nunca estar no passado, sendo que ele também faz parte do que a gente é. A vida não isola nossas partes. A vida real não é como sempre poder escolher o pacote sem bolachas quebradas, nem como poder trocar a roupa que veio com algum defeito. Somos pedaços de um todo, jogados em meio as nossas decisões. Não dá pra sempre ser feliz. Aceite isso... Mas a verdade é que tudo seria mais simples se nos déssemos o direito de sofrer. Olhar para trás. Não querer seguir em frente, mesmo que por dez segundos. Se arriscar de novo não é pecado, mesmo quando tudo já parece ter sido o suficiente. Meça sua maturidade pela capacidade de ainda se emocionar e não pelo medo de parecer fraco quando a placa de retorno parecer ser a melhor opção. A vida começa quando você aprende a se carregar sozinho e nessa tarefa, não cabe a vergonha de ser o que você realmente é: coma as bolachas quebradas também. Sempre.

Um comentário:

Leonardo Okano disse...

Valeu a reflexão Ogra!!! tô meio nessa fase, saindo de emprego, carro roubado e término com a namorada. Comecei hoje pelas bolachas inteiras...