26 de junho de 2014

Interessa?

Soundtrack: City and Colour - Little Hell

As pessoas dizem que amar é ter interesse na vida do outro. Enquanto isso, perguntam desconfiadas: o que você fez de bom naquela noite em que não atendeu ao telefone no segundo toque? Para mim, amar é somente ter interesse. Sem saber no quê, amamos profundamente quando simplesmente ouvimos o outro contar cada detalhe daquele diálogo que ouviu na fila do banco ou de uma briga com um telemarketing, com o chefe, com a vida. Amar é tomar a decisão de ouvir, é também poder entender, também querer desconfiar e logo se lembrar de que amar também é uma escolha. Amar profundamente é conseguir chegar aos fatos com a delicadeza de um primeiro beijo, a ponto de que o outro não precise sentir a obrigação de atender ao telefone no primeiro bip e sim que ele queira atender o mais rápido possível, mesmo no meio da correria, para somente ouvir você dizendo aquele oi. Para fazer de uma única palavra uma rede na praia, no meio de um dia cheio de coisas ou somente cheio de nada. Amar é saber a hora de desligar, de não precisar saber mais, de dizer tchau, de guardar aquela curiosidade provocativa na gaveta. É saber a hora do profético “então tá bom”. E isso não é permissividade. É proximidade, é a própria fidelidade em palavras! 
Mostramos o verdadeiro interesse no que demonstramos implicitamente... Como fazer de um "boa noite" ou um "como foi o seu dia" despretensioso, um convite para sentar e tomar um vinho ali mesmo, pelo telefone ou no meio do trânsito. Somos egoístas quando nos achamos no direito de nos interessar pela vida do outro buscando respostas somente naquilo que parece gerar curiosidade em nós, numa espécie de conquista de uma mão só. Ficamos feito criança desbravando um tesouro de pirata que o vizinho disse existir no quintal, cavando por desconfianças que nós decidimos criar e que nem sabemos se realmente podem existir.  
Amar é se interessar pelos dois, é não precisar cavar fundo por respostas que chegam, é querer estar ali, não aceitando tudo e também não desconfiando de tudo. Amar é o interesse pelo que se é quando está junto e pelo que se quer ser quando está distante. É o próprio interesse, não pelos detalhes espaçados da vida do outro e sim pelo outro em sua vida, pelo espaço necessário para se conviver e pela arrebatadora dúvida que é o amor... que é amar. 

2 comentários:

Paulo Ricardo Silva disse...

Muito bom Camila...

Bruno Sechini disse...

Camilla, eu amo tudo o que você escreve desde que consigo me lembrar. E alguns textos, às vezes, parecem ter sido escritos pra mim ou, ao menos, sinto que eu precisava ler aquilo naquele exato momento.

Obrigado por esse sentimento :)