20 de junho de 2010

Obra



Soundtrack: Bright Eyes - First day of my life

O desejo do destino é algo que chega a escapar do poder de se segurar com as duas mãos. A tarefa de querer reinventar as coisas, de domar o que não se é certo, é realmente difícil, como escrever certezas a lápis num guardanapo. Respeita-se então a idéia de que durante todos os dias de nossas vidas aprendemos a construir momentos, em meio às incertezas, e junto deles construímos as pessoas. A maior verdade de tudo isso que chamamos de caminho, talvez seja o fato de que não importa se a construção exige tempo, mão de obra ou muitos tijolos, o que realmente importa é a argamassa. Não importa o tamanho do que se constrói e sim o que se firma entre o que constrói, podendo durar dias ou chegando até o limite do que se aprofunda eterno. Cansa fácil quem cria demais e várias vezes, quem usa de muitos tijolos, mas tem dó de gastar no reforço de cimento entre eles. Cansa quem sempre espera ver tudo cair a sua frente e ainda assim não aprende que o segredo da obra é o laço, é o nó de consolidação. O que perdura é ser acabamento simples e puro. É se aceitar mais de uma mão para construir, sabendo dividir o sentimento, sabendo ser mistura e se salvando do tempo que é um teste para a desatenção e a comodidade. O tempo é recurso do destino e seleciona não quem mereça amar mais, mas sim quem saiba amar e quem ousa. Quem ousa ser o que realmente é, não se diminuindo na primeira chuva, por saber que a liga da argamassa é forte e resiste. Ousa quem sabe reagir às palavras, quem se arrisca a perder o sossego, a sentir as náuseas desse barco de mares estranhos. Ousa quem acredita que há amor suficiente no mundo, quem ainda gosta de cafuné, quem escreve o nome do outro no box durante o banho quente. Ousa quem assume o poder dado a nós pelo destino de nos descobrirmos amantes, seja na falta, na urgência, carência ou paciência da espera. E assim se constrói amor, não se limitando ao número de construções e tentativas, mas também não se limitando ao "ser amado". Se constrói o amor, sabendo ser amante, diante desse Sol que nasce em cada dia de obras de uma das empresas mais ricas desse mundo: o coração.

24 de maio de 2010

But I'm long gone



Soundtrack: Iron and Wine - Flightless Bird, American Mouth

Me lembrei de um dia em que você estava indo embora e eu perguntei: já posso sentir saudades de você? Em resposta, simplesmente ganhei um sorriso, daqueles meio sem jeito e te vi descer as escadas. Hoje, depois de vários meses, me peguei pensando nisso. Por que diabos te fiz essa pergunta, sabendo que não existiria resposta alguma?! Se eu fosse um pouco mais esperta teria me prometido te esquecer naquele instante. Não deveria ter atendido mais o telefone, deveria ter virado um tatu no buraco, abelha rainha na colméia, raposa na toca. Simplesmente esquecido, escapado, sem te dar direito qualquer da sua mínima resposta: seu sorriso canto de boca, que doeu. Doeu você não permitir a minha saudade, essa que seria só minha. Eu que não estava nem pedindo a sua saudade, eu que não pedia pra que você lembrasse de mim, em pleno estado de "nada concreto" na sua vida. Pedi apenas pra que me deixasse te lembrar, pedi um copinho americano de carinho. Cheguei a pensar que pudesse merecer algo melhor e nem precisava ser o tal do seu amor. Aliás, eu nem sei se essa palavra seria tão maior que ganhasse do teu abraço, das nossas conversas. Talvez eu só quisesse isso, o teu sim, o teu consentimento, as nossas diferenças e até acreditaria no dia em que você acabaria com esse medo de deixar o coração rastejando baixo, essa coisa superficial. Eu secaria o seco, eu falaria rouca, eu amaria por dois, porque no fundo eu não me daria nem conta. Mas quando você desceu aquela escada, você fez por nós. Na verdade, a dor que ganhou não foi a do seu sorriso sem vontade, foi a dor de nem precisar secar o teu seco. Foi a dor de não poder escolher como eu devia me sentir e apenas sentir, de não precisar tentar. E lá estava a mocinha: out! Antes de querer sair, antes de pensar em deixar de amar, antes de escrever a primeira página... Out.

7 de maio de 2010

Conteúdo torácico



Soundtrack: The Fray - Look after you

Quer saber? Tenho um bocado de coisas aqui dentro pra te dizer. Confesso que às vezes, tenho vontade de sair por aí, pisando em corações, deixando cacos que me cortassem os pés, mas que ainda assim pudessem me explicar o merecimento do quanto você ainda me dói. Me corta. Estilhaça. Amassa. Você tem esse poder de sorrir com os olhos, de falar com as mãos. Você me cansa, me alcança, me balança. E eu fico feito criança na gangorra do parquinho, olhando pro lado e procurando alguém que me balance mais alto, que me faça ter coragem de pular no chão quando a gangorra estiver bem lá em cima. Pura brincadeira para alegria miúda. No fim, eu sempre sou meu próprio consolo, no fim quem me balança, cansa de brincar e sai. E aí eu volto pra casa e sinto teu cheiro, sinto que vou me desajeitando sem perceber. Guardo teu espaço na cama, o espaço da tua escova de dente ali na pia ao lado da minha. Guardo teu espaço no sonho de cada dia, guardo você em qualquer música que fale de amor. Guardo as lágrimas, guardo o suspiro profundo, guardo a saudade, a dor, guardo o medo. Guardo tudo, no fundo da gaveta e deixo aqui, na palma da minha mão, só o perdão. Eu te entrego, te perdoo, porque te amo. E por isso, eu não me perdoo, ainda que nas fraquezas eu possa descobrir o poder da gratuidade desse sentimento, da minha facilidade de doação... Esse poder que eu tenho, mas que me tranca o peito e não me faz ser uma mulher maravilha dos quadrinhos.

26 de abril de 2010

You picked me



Soundtrack: Marcelo Camelo - Janta
Te recebo a qualquer hora. Mesmo que não tenha café, mesmo que seja nos meus sonhos. Te recebo em cada gesto, te recebo em cada lembrança do teu rosto, em cada expressão que vem com a ausência. Te recebo por inteiro, sabendo o quanto você me intriga e ao mesmo tempo me deixa rindo fácil. Te recebo mesmo quando a gente "se some", sem datas, sem contagens. Te recebo como cobertor de saudade, com a falta de tato e olfato sem você. Te recebo como se eu soubesse disfarçar o tremor das mãos, como se sempre fosse o primeiro beijo, como se sempre fosse o último beijo. Te recebo como se a história nunca terminasse, mesmo que você nunca mais viesse, mesmo que não houvesse mais o teu sorriso. Recebo você como milagre, invenção do céu, recebo você nas coisas mais lindas, serenas e intensas. Recebo você na fé, no teu olhar que me dissolve, recebo sem cura, mesmo que me chamem de louca. Te recebo na fuga dos dias comuns, no desejo do destino, na falta das palavras. Te recebo porque dois é sempre melhor que um. Te recebo porque o riso é espontâneo, porque abri as portas daqui de dentro pra você. Recebo sendo tua, recebo sendo meu. Recebo porque te amo!

15 de março de 2010

Polegar



Soundtrack: Coldplay - See you soon

- Parece que sua digital tem seu gosto.
Logo que seu polegar passou na minha boca, a vontade era dizer isso. Mas não consegui. Me calei, com o teu polegar na minha boca, com sua boca na minha boca, com seu cheiro nos lábios. Me calei com o pensamento voando léguas, com seu cheiro de meu, cheiro de saudade, cheiro com respiração. Me calei com seus olhos, com a naturalidade de como eu me perco e logo me acho, fazendo barulhos estranhos na sua bochecha. Me calei por te tocar, por ecoar no meu ouvido você dizendo: te amo. Calei por não ser necessário dizer, por não ser necessário interromper tamanha proximidade com uma baforada da minha loucura dizendo que tua pele tem gosto. E num impulso, esqueci do silêncio e pronunciei com a garganta seca de tanto ter me calado:
- Saudade.
E novamente, você se foi. Sem digitais, cheiro e silêncio, me sobra sempre a saudade e a nossa verdade, que te faz voltar em meio a dias de sorte e que me faz crer que o dia é realmente de sorte.