9 de agosto de 2012

S.O.S



Soundtrack: Yann Tiersen: Comptine d'Un Autre Été

Salvem o amor. Sejam maleáveis como a água dançando em um copo, sejam firmes como o abraço, sejam bobos como os apaixonados. Salvem os domingos tediosos com pipoca e beijo, salvem os abraços de conchinha, aqueles em que se cansa 10 minutos depois, mas que parece ser a bíblia da comunhão. Salvem o amor. Aquele que rouba a coberta enquanto o outro dorme, da barba na nuca até o fim do dia, até nunca mais. Salvem aquele amor que se pega, se deixa, se odeia por minutos, se ama por uma noite. Se ama pra sempre ou aquele que nunca mais vai se amar (até o nascer do sol). Salvem aquele amor que aconchega, que une os narizes gelados com o vento na rua, que une os olhos, que une as mãos. Aquele que te salva de um coma sentimental, que te apresenta a felicidade, que senta no seu colo e quando você tenta fazer o mesmo, veste uma cara de que você pesa uma tonelada pra ganhar um tapinha seu. Aquele que te deixa com cara de brava só pra te ganhar com os dedos, que passam pelos seus cabelos como quem limpa o resto da cobertura do bolo. Salvem o amor, aquele com o gosto do primeiro gole de cerveja, com o gosto desajeitado do primeiro beijo, com gosto de água depois da comida salgada, mas com o mesmo cheiro de sempre. Salvem aquele amor que dirige e bota a mão na tua perna, como quem diz "eu te guio". Aquele que anda e bota a mão na tua cintura, como quem diz "eu te seguro". Salvem o amor, com um laço perfeito, sem embrulho caro, mas com a velha desculpa de que "não sabia o que escrever no cartão". Salvem aquele sentimento onde ninguém se persegue, mas que ainda assim se precisam. Salvem o amor, com menos calcinha bege, mais cueca boxer, com rendição de atrasos, com perdão de esquecimentos. Aquele que te diz "saudade" parecendo dizer que o time ganhou, que te pergunta se você fechou a janela, se você resolveu seus problemas de gente grande. Aquele que pede a cerveja, que divide a conta, que te dá uma música, que te rouba uma música. Salvem o amor, com menos armadilhas tecnológicas, com mais cama, mesa e banho. Salvem o amor próprio, o amor cego, o amor não-usado, o amor perdido, o amor encaixado, o amor que está por vir. Apenas, salvem-se. Apenas, amem-se, apesar do "se", apesar de.

20 de julho de 2012

Conversando com estrelas



Soundtrack: Bon Iver - Holocene

Por mais de cem vezes tentei repetir: a gente não dá certo. A gente não dá certo, respiro, baixinho. Soluço. A gente não dá certo mesmo. Mas e agora? Existe mesmo esse negócio de pedido pra estrela? Nesse frio imagino as estrelas lá no céu, discutindo: olha lá, mais uma pessoa ali pedindo um amor de verdade. Poxa, estrelinha, dá uma força pra gente aí. Ouve meu pedido, meio questionando, meio tentando entender: a gente não dá certo. Mas o que é o certo? Felizes para sempre, um cachorro peludo correndo na grama e a gente sorrindo feito garotos propaganda de pasta dental? Não sei. Sei que viver isso, assim, não é certo. Essa mágoa, essa coisa esquisita de dizer que "te perdi", mas eu tive você? Essa coisa de explodir, jogar gasolina, botar fogo, falar mais alto que a musica no fundo, só pra você me dizer: a gente não dá certo mais. E nessa frase fica um doce, eu ganho de você um "mais", fazendo acreditar que a gente já deu certo. E aí te olho, digo que você é lindo e você me trata como se eu fosse a tiazona da família, aquela que apertava sua bochecha e dizia: nossa, mas você tá grande, bonito. Não, porra! Eu te acho lindo, porque eu te amo. E por causa disso fico seca. Por causa disso me culpo, porque sempre prefiro ver o botijão explodir mesmo sabendo que você vai dizer isso. É como se ficar perto de você me fizesse entrar numa casa quentinha, com quadros bonitos na parede e com você esperando no sofá, com uma faca e uma flor. É lindo, mas dói. É como ficar surdo pra conseguir sorrir, como ficar cego pra poder sentir. Não digo que te amo pra ter as palmas da platéia, que pega até a pipoca pra me ver ali, tentando redimir meu erros, enquanto você nunca fala em acertos. Ou talvez digo que te amo porque me acostumei. Mas sei lá, eu cansei. Cansei desse medo, de brincar no meio fio e nunca conseguir dar mais de cinco passos seguidos, de não ter um relacionamento com mais de 5 passos, por causa do seu "mais". Felicidade que ficou lá atrás bloqueia caminho aqui na frente, deixa gente aleijada sentimentalmente. A gente diz que dói, diz que fere, vê que sangra, mas ainda assim fica mais fácil do que voltar atrás de "felicidade velha", é como se proteger. Você não diz que foi feliz comigo primeiro, antes disso vem sempre a frase: você me machucou. A gente desaprendeu o caminho. Eu desaprendi isso que é o namoro, cuidado, mãos dadas. E você escondeu todas as pedrinhas que eu tinha deixado pra tentar voltar. Então, fico oca e lá de dentro ecoa: a gente não dá certo. Mas quer saber? Eu dou certo. Eu sou bacana. Eu mereço dar certo. Agora fica decidido que eu quero só gente de verdade, menos expectativa, mais pedrinhas pra novos caminhos, porque eu não desaprendi de amar. E até o texto chegar aqui, já repeti mais umas dez vezes que a gente não dá certo. Falando com a minha estrelinha, decidi fazer um pedido melhor: não quero mais chorar por felicidade velha.

14 de junho de 2012

Entre bulas e remédios da vida



Soundtrack: Caetano Veloso -  Você não me ensinou a te esquecer

E então chego na farmácia e peço: me vê umas doses homeopáticas de uma decisão livre e totalmente cabível a uma felicidade relativamente próxima. O farmacêutico me olha e ri: "isso a gente não tem não, moça. Você é tão bonita, por que a tristeza? Vai ser feliz ou vai acabar sozinha em um bar". Não sei até que ponto pareci uma bêbada, talvez pelas voltas nas palavras, talvez pelo bafo de solidão."Eu gosto de cerveja gelada, moço, mas tô precisando é de solução", essa foi a resposta que um lado profundo de meu cérebro programou. Até que meus pés começaram a se movimentar e me levar. Sensação de "tô por aí?", sacomé? Imagino pelo menos 9 em 10 pessoas que sentem isso agora, essa outra provavelmente está presa numa cadeia. Pois é, essa sensação que faz você vezenquando parar numa esquina e aceitar a dica de um farmacêutico, que prefere te dar uma boa pinga do que um rivotril.
O bar... O bar é um território dos amores. Gosto de dizer isso. Sempre me perco observando as pessoas sentadas, a histórias delas. Imagino amores subversivos, impermanentes. Relato para meu subconsciente pés na bunda, morte de vô, encontro de gay. O bar sustenta um clichê de beleza pessoal, espontânea (ou totalmente derivada do álcool), uma beleza calculada. Sento, cruzo as pernas e relato: as pessoas são felizes acreditando em qualquer coisa. Quem sabe de um olhar ao som de Nando Reis, você ganha um par de escovas de dentes no seu banheiro ou quem sabe, o Nando Reis nunca mais tenha o mesmo gosto. O bar é essa dualidade. Analiso um casal e imagino eles trocando o chiclete, beijando sem escovar os dentes. Criando apelidos, dando beijo de esquimó, saindo para almoçar. E ela treina um strip tease, compra uma roupa nova, faz um fettuccine ao molho branco. Ele muda as músicas do carro, pergunta se ela gosta do perfume, não toma mais café antes de encontra-la. E eles compram pipoca no cinema, se beijam e reclamam das pessoas conversando. Arrebentam nas cenas de ciúmes, brigam por quem ama mais, arrebentam nas cenas de ciúmes (de novo). Conversam enquanto tomam banho, compram almofadas novas para a casa dela, vão ao supermercado e abrem um pacote de jujubas escondidos. Eles decidem que a cerveja é Brahma e que quando tiver mais grana, pode rolar uma Original. E ela diz que ama a barba mal feita dele, ele diz que ama ela de pijama, mas ama mais quando a alça do sutiã fica a mostra (e sonha com ela nua). E eles se abraçam e ouvem Nando Reis, enquanto a mãe dela pergunta sobre ele. Enquanto a mãe dele quase não pergunta sobre ela. E aí o tempo se perde e naquele momento, já nem faz mais diferença o que é aquele bar. O que são aquelas pessoas. Pra eles, eu não sou nada. Eles se bastam, ali, efêmeros, eternos. Eles se bastam ali, nas suas doses homeopáticas de uma decisão livre e totalmente cabível a uma felicidade relativamente próxima.
Eu fecho a conta, volto para a casa, mantenho a dúvida. Penso sobre essa relatividade de acreditar que coisas boas virão, que a gente consegue se sustentar nas mãos dadas. Nessa coisa de apostar no silêncio dos olhares, na instabilidade do destino. Ou nessa coisa de se debater em crer, parar de olhar pro lado, criar o discurso de final, já treinar o tom do desculpa. Sustento essa ideia de que tenho pena da gente, dessa insustentável leveza de aparentar "ser feliz", enquanto estar sozinho é como comer chumbo. Mas às vezes, tenho alegria do que a gente consegue ser, do "eu te amo" sincero, sem precisar de muita coisa, evitando, por gentileza, muito melodrama. Evitando o rancor quando é só "tchau, se cuida" ou quando não é mais nada. Olha, a gente pede tão pouco pra ser feliz, a gente até acredita em trevo de quatro folhas. A gente desvira o sapato e protege as nossas mães todas as noites, a gente acredita nas canções de amor, a gente gosta de sorrir, a gente gosta de amar e ser amado. Então, por que a gente chora? Por que a gente não acredita mais? Por que a gente pede doses homeopáticas de uma decisão livre e totalmente cabível a uma felicidade relativamente próxima? Enquanto me questiono atravessando a rua, eu mesma me respondo. Vejo o farmacêutico entrando no bar e concluo: porque falar é fácil.

24 de maio de 2012

Se é possível descrever...

O Medina do Los Hermanos propôs no seu blog um modo dos fãs compartilharem suas emoções antes, durante e depois do show dos caras. Então, decidi arriscar (ao meu modo) e também compartilhar com vocês. As partes em negrito são as frases obrigatórias durante o texto.
Em nome do Los Hermanos, hoje o Sentimentolices brinca de ser feliz (e pinta o nariz) pra palavrear o sentimento da autora desse blog depois do show mais esperado da sua vida em Belo Horizonte. 


Belo Horizonte, 19 de maio de 2012


Na verdade, pra mim esse show começou muito antes do que quando de fato ocorreu, mais precisamente quando eu (agradecidamente) nasci numa família de músicos. Certo dia, a banda do meu pai, estilo "toca de tudo" recebeu um pedido do público pra que tocassem "Anna Júlia" num dos shows. Sou do interior de Minas e quando aparecia algo diferente do habitual o questionamento era sempre esse: essa música já chegou aqui? No ano de 2000, eu com meus 9 anos de idade, conheci o famoso pedido. Lembro da música, enfim, ser tocada nos shows e do refrão entusiasta que levava todo mundo a cantar junto (até George Harrison). Confesso que o tempo passou e esqueci quem era Anna Júlia, por isso mesmo o show começou antes mesmo de eu imaginar. Por sorte, em 2004, tive a Ventura de me tornar mais próxima dos Hermanos. Foi quando, já mais velha, depois de doses cavalares de musicalidade dentro de casa, aprendi o valor de harmonia, letra e sentimento. Me apaixonei, essa é a verdade. Mas com 14 anos de idade, dizer "mãe, me deixar entrar num ônibus e ir atrás desses tais de Los Hermanos" era pedir pra ganhar não. O tempo passou, as músicas enfiaram na cabeça a ponto de cantar os metais da banda junto com o cd (algo típico dos fãs). E em 2007, eu, numa cidade pequena, ganhei um prolongamento nas reticências da espera por ouvi-los ao vivo. O fim da banda gerou a busca por covers em Juiz de Fora, Belo Horizonte, Uberaba e só alimentava o sonho de poder me emocionar com um show de verdade. Até que no dia 15 de novembro li no blog do Medina "2012 será o ano de turnê do Los Hermanos". Os olhos brilharam e desde então o tempo voou. Esperar pela meia-noite do dia da venda de ingressos foi como esperar pelo DVD do "Cine Iris" de presente de aniversário. Ingresso garantido, passagem comprada, todas as músicas decoradas  e então finalmente era chegado o dia do show. Assim que entrei no local, observando a plateia, logo percebi que aquela noite seria Sentimental. Depois de subir as escadas, que davam pro segundo andar do Chevrolet Hall, estar ali era como entrar num banho depois de um dia cansado. Era se iluminar com os sorrisos dos outros, que se misturavam aos seus, que embalavam os gritos de espera, que tomavam conta das batidas do coração. Estar ali era ser tomada por uma vontade de não sair antes mesmo de começar. Sem me preocupar se eu estava longe de ver a barba do Camelo, as danças do Amarante, o sorriso do Medina, a seriedade do Barba... Sem me preocupar se eu estava amassada em meio a tantos corpos, estar ali era simplesmente esperar por um sonho. Após alguma espera, a expectativa só fazia aumentar, até que finalmente a banda surgiu no palco e o que aconteceu deste momento em diante poderia ser descrito como permitir uma graça que só a música nos dá. Não conseguia ouvir o meu grito, que virou um grito único de milhares de pessoas. Descobri o poder do corpo humano por não ter meus dois pulmões expulsos do corpo junto com um coração que acelerava a cada "uh, los hermanos, uh los hermanos". Era como se todos pedissem pra que tocassem logo, depois de anos de espera. Era como esperar um presente... Logo quando começaram a soar os primeiros acordes da música de abertura, a impressão era a de que aquele lugar havia se transformado em um sonho, enfim, palpável... Enfim, audível. Eram sonhos reunidos e isso dava ao solo de "O vencedor" uma impressão de hino nacional da nação Hermânica (pra não dizer, Hermaníaca). "Olha lá" nunca teve tanto peso no meu peito. Bateu e saiu pelos olhos. Os versos seguintes foram acompanhados de um choro sincero, um choro agradecido. Não um choro vinculado somente à imagem de tê-los ali, mas também vinculado ao som, as guitarras, as batidas, ao teclado, aos metais, ao que eu chamo de prazer auditivo. Lembro de olhar pra minha irmã numa passada de olhos e vê-la emocionada ao me ver ali, totalmente entregue a um encontro esperado por anos. Nos segundos de solo, pude lembrar de nós duas brincando no carro durante uma viagem "fala um show que você sonhou ir". E enquanto ela dizia artistas mortos, eu respondia: Los Hermanos. Vivos e únicos, porém parados. Enquanto as lágrimas desciam paradoxalmente, o sorriso abria e o show foi seguindo seu curso, tendo o repertório passado por todos os discos lançados. Agora, sem dúvida, o melhor momento da noite foi quando ouvi Primeiro Andar. Como orar durante as noites, o meu reflexo foi fechar os olhos e esquecer tudo que existia a minha volta. Mesmo estando no segundo andar do Chevrolet Hall, consegui conhecer algum terceiro andar que fica por aí. Me enchi de todo o sentimento e acho que refleti tudo que ela significa pra mim. Quando perdi meu pai, o mesmo que me ensinou tudo que eu sei da música, Primeiro Andar era um mantra pra que meus dias fossem recheados de coisas boas e que assim eu contasse pra ele, em algum lugar, "quem vai saber?". Assim como acho que agora, escrevo e conto o que eu vi pra ele também. Acho que ele me viu, guardando um sonho bom, vivendo esse sonho. E quando tudo parecia estar terminado, ainda havia o bis e "Tenha Dó" tomou conta das minhas pernas e braços, me tornando mais uma "Bubu dos trompetes" que se fez ali. Lembrei de quando eu dançava essa em casa, sozinha e foi como imaginar tantos outros que deviam fazer o mesmo podendo dividir comigo aquele momento. Euforia total do primeiro acorde, passando pelo refrão até o "laraiá" final. Depois de quase 30 músicas, "Pierrot" sinalizou o fim da festa. As luzes se apagaram e a turnê seguiu adiante, para outras cidades. No futuro, quando for contar as pessoas como foi o show, vou dizer que essa noite será sempre lembrada por ter sido a demonstração da alegria simples que é estar diante da realização de um sonho. Cada minuto, cada momento, teve um tom especial, um dom de saber envaidecer por se saber que ouvi-los ao vivo era tão melhor do que qualquer sentimento imaginado. De modo engraçado, quando os músicos deixaram o palco com o final do show, soltaram aquela música "Não se Vá" da Jane e Herondy e nunca cantei com tanto apreço algo que queria dizer pra cada um deles: "não se vá, não me abandone por favor, pois sem você vou ficar louco". Não sei se louca de saudade, não sei se louca de vontade de dizer "obrigada" repetidas vezes ou de ver muitos outros shows, ouvir muitas outras músicas, mas sei que sempre louca pelos meus Hermanos.

11 de maio de 2012

Do fundo do meu coração



Soundtrack: Adriana Calcanhotto - Do fundo do meu coração

Possibilidade deveria vir com bula. "Recomenda-se pés nos chão durante todo o uso. Evitar super dose e não misturar com o sentimento dos outros. Aplicação oral". Acontece que entre um lance e outro de uso, a gente se engana. Tomar a possibilidade é simplesmente não tomar nada, além da dúvida. Efeito placebo. Acontece que entre uma dose e outra sempre cabe um pouquinho de invenção, saudade, planejamento. E sobra espaço pra se decepcionar. Sobra espaço pra se esperar por alguma coisa que caia do céu, uma resposta mirabolante,  um momento especial capaz de transformar totalmente o foco da situação, capaz de levar a gente junto.
Fiquei pensando no que essa vida promete pra gente. Se é algo contagiante a mania de me enfiar em coisas idiotas, de insistir em pensar o que eu quero de você, sem nem saber o que eu quero de verdade pra mim. Não sei se isso é medo, se tem alguma relação com minha desconfiança até de tentar atravessar a rua quando o sinal está amarelo. Não sei se tudo só parece sair do lugar sem girar ou se por tudo realmente ter girado, você saiu do lugar em que eu te encaixei (ou do lugar onde talvez você nunca coube). Me diz então, como é que se espera por algo que não chega? Onde é que eu caibo nessa história? Quando é que eu fico doce, deito na cama e vejo a beleza de estar sozinho? Me diz como se olha pro teto sem parecer que ele está prestes a cair? Me explica como se diz boa noite sem a impressão de que o dia se encheu de coisas prestes a explodir num simples fechar dos olhos? A questão é que essa cena tá velha: as pessoas mudam e mentem. E nessa urgência de verdade a gente opta por qualquer caminho, independente do destino. Até cair de novo em visões paranormais do que se pode ser, de coisas que podem aparecer ou simplesmente desaparecer. Até se entupir, até se esvaziar.
Não menti, eu assumidamente te quis e até tentei te procurar depois de tudo, mandei uma ou duas mensagens, sem resposta. Na teoria, penso em você confuso, sentado no sofá, numa sexta a noite, pensando "meu Deus, o que se passa na cabeça dessa menina? Como ser sincero e não parecer um babaca?". Na realidade, vejo você parar qualquer coisa que está fazendo, ler a mensagem e jogar o celular num canto, solubilizando no silêncio todo o remédio da possibilidade. Vejo você se dissolver entre as minhas veias, artérias, oxigenar meu cérebro, dar um "barato", até ser eliminado pelos olhos. Talvez seja isso, não tem como explicar, às vezes acabamos sozinhos por acreditarmos muito na hora errada e ficamos olhando pro teto, olhando pras pessoas, colocando vírgulas no caminho. Ou tentamos nos apegar à ideia de que quando menos esperarmos algo vai acontecer e enfim vamos assinar um contrato vitalício com a verdade, mesmo que seja até amanhã de manhã, mesmo que a gente continue com medo de atravessar a rua com o sinal amarelo. Acho que essa história acabou de perder o poder. Dissolveu, feito seu silêncio, feito a nossa mentira. Enfim, chegou nosso dia de contrato vitalício com a verdade, sendo que ela agora já não importa tanto mais, importa? Nossa verdade veio com o tempo e a partir de agora, vai embora com ele. Estar longe é quase esquecer.