10 de fevereiro de 2016

Corpo no chão, cabeça feita


Soundtrack: Gary Jules - Falling Awake

Quando eu era mais jovem, minha vó costumava dizer do poder de, às vezes, andarmos descalço. Segundo ela, precisamos dessa conexão com a terra, desse pé no chão. Como se qualquer sapato, fosse um escudo de energias impedido nossa conexão com algo maior, nossa descarga. Anos depois, em linguagens mais complicadas, me contaram que andar descalço realmente tem esse efeito, chamado de aterramento. A Terra possui cargas naturais e nós conseguimos estabilizar nosso “sistema elétrico” ao tocarmos o solo, como uma relação de recarga. E fiquei pensando logo em uma frase corriqueira que dizemos: pé no chão, cabeça feita. Guarda isso aí, enquanto eu prossigo...

A vida exige mudanças. E exige um pouco mais do que só mudar... Existe o bônus de aprendizado. O que nem todo mundo sabe é quando deve estar preparado para só mudar ou quando também é preciso valorizar qualquer lição, consciente ou inconsciente. Acredito que todos nós somos feitos de buracos, pedaços que vão se encaixando aos poucos, em meio a essa corrida do “mudar versus aprender”. Nestas frestas abertas e às vezes, expostas, acabamos fazendo caber a busca por qualquer coisa que faça sentido, que nos faça esquecer o medo: de sentir, de sofrer, de errar, de sentir o próprio medo. Mudanças que ensinam precisam nos colocar na posição dura de vítima por um certo momento, testando nosso limite de perseverança, quando sempre cabe a velha pergunta: “o que eu estou fazendo da minha vida?”. E aí, você acredita ser a pessoa mais perdida do mundo naquela hora, enquanto no fundo você só é alguém que deseja preencher mais buracos do que outros. E isso pode ser bom – faz a gente querer ser mais completa e sair do piloto automático. Aquele das relações sem dores ou discursos clichês, aquele das vidas tranquilas sem dificuldades para trocarem de carro quando bem querem ou seguirem suas profissões, mesmo infelizes. Aquele das pessoas que parecem somente acordar, viver e dormir, enquanto você mal dorme em alguns dias, enquanto você parece testar cada limite do seu coração, com frases estúpidas e cobranças pessoais.

Apesar de parecer dolorosos e bagunçados, somos aqueles que aceitaram deitar nessa tábua de emoções que a vida dá – para falar, sentir, viver, não querer mais, insistir, chorar, rir até doer por alegria ou desespero, perder, ganhar, sentir medo. Apesar de tudo isso, nós temos a moeda mais valiosa dos dias atuais: nós nos preocupamos com a capacidade de sentir, pois isso é nossa humanidade e essa é a graça da coisa toda. Em certo momento, a dor morre, a confusão acaba, a luta faz sentido e, quando isso acontece, nós mudamos e aprendemos, enquanto aguardamos a próxima oportunidade de renascimento em meio as nossas várias frestas. São nossos ritos de passagem...

Minha vó dizia do pé no chão e a cabeça feita, até que um dia eu decidi deitar no chão gelado e testar a possível troca de energias como meu rito de passagem. Corpo no chão, cabeça feita. Eu deito, ouço música, respiro fundo – às vezes, tentando entender o que eu estou fazendo da minha vida. Mas fico ali, deitada, até a primeira sensação chegar. Até eu chorar, sorrir, sentir medo, querer sair correndo, querer falar algo... Então, recordo a minha capacidade de sentir e, mesmo sem entender nada de alguns caminhos, me sinto viva novamente. Renasço ali. E isso me basta.

26 de abril de 2015

Quando o mundo para


Soundtrack: The Head and The Heart - Rivers and Roads

Quantas vezes a sensação de que o mundo parou pode caber em uma vida? Pensamos que a raridade desses momentos acaba equivalendo à capacidade de sentir as coisas intensamente, ao ponto de tudo parecer pequeno e efêmero diante daquele “timing” – o tal nem antes, nem depois, a tal exatidão. Mas descobri a real diferença entre as duas coisas. Costumava classificar meus timings em momentos superestimados por mim, seja para a alegria, seja para a tristeza. Esses momentos, de cinco segundos ou mais, onde tudo que se vive é a sensação devastadora de que algo em nós se desprende e fica do lado de fora, gravando o que estamos vivendo. Mas, a sensação de que o mundo parou pode ser cruel quando não aprendemos a diferenciar a intensidade do que elas podem representar. E aí vem a diferença. Nesse lapso que são as memórias, essa sensação chegou nos dias em que eu pude sentir como somos realmente carne, ossos e intermináveis portas sensitivas. Seria basicamente impossível não dizer que os meus verdadeiros timings aconteceram nos momentos mais intensos da minha vida. Mas descobri que, na verdade, meu mundo também pareceu parar naqueles momentos mais simples, que cabem dentro das grandes coisas. Lembro-me de tudo parar quando, sem ver, tocaram minha mão sem querer ou em meio a olhares sem contexto, daqueles que são tão curtos, mas que é possível se enxergar ali, dentro da pupila do outro. Meu mundo parou também na simplicidade de alguns fracassos, como não saber dizer tchau, como não saber o que falar diante de algo ou diante de alguém que não falou o que eu queria realmente ouvir. Ele parou quando tão rapidamente planejei um sonho inteiro para minha vida, junto de um pôr-do-sol inesperado, de um vento no rosto num dia cansativo...

A verdade é que percebi que para que o mundo realmente dê uma daquelas paradas que fazem diferença, é preciso estar acompanhada da reciprocidade. A vida já é muito insinuadora de sentimentos pequenos com cara de companhia ou de ausências que nos acompanham mais que a própria sombra. Concluí então que é preciso escolher bem o que seremos nesse caminho desavisado. É preciso decidir o que realmente tem o poder de, em cinco segundos ou mais, dar um stop em tudo. Então, esqueça a intensidade. Esqueça as velhas histórias de que quando o mundo parar, saberemos que estamos num caminho certo. Esqueça o tal “isso é um sinal”. Só faça questão de que, naquele momento único, você tenha alguém inteiramente disposto a dançar, com os pés, a cabeça e o coração... Ainda que seja a sua própria companhia. A vida também tem disso - chama-se coragem.

1 de fevereiro de 2015

Pequenas mortes cotidianas

Soundtrack: Kodaline - All I Want

Sabe quando, de repente, o ouvido da gente parece tampar e percebemos um leve zumbido? Isso tudo pode ser um sinal de morte celular não programada. Quando menos se espera, sentimos uma parte de nós morrer e pronto, tá ali, o fim. Nessa lógica, percebi que somos feitos de outras pequenas mortes cotidianas. Algumas mais silenciosas e duradouras do que um zumbido, mas ainda assim funcionam como um adeus. Um dia, percebemos que certos lugares não nos afetam mais, que certos sentimentos já não se embaralham no viés que é a vida. Já não cabe mais raiva, rancor, mágoa... Já não se sabe mais contar como era aquela história preferida que sempre ficava mais linda a cada repetição. De repente, já falamos "não" quando a vida tenta te fazer olhar para trás, naquela hora desprevenida, entre uma música e outra ou entre um gole e outro de cerveja. 
Pequenas mortes entram em sua vida mesmo quando tudo que se desejou foi acreditar na vida das memórias. Elas entram naquela pequena passagem que as mentiras fazem e de lá seguem caminho para o inconsciente. Até que acordamos e não existe mais o mesmo cheiro, não existe mais o mesmo gosto, não existe mais a mesma dor e nem o medo - de amar de novo, de sentir de novo, de sofrer de novo. Somos renovados pelas pequenas mortes cotidianas e criamos assim novos espaços para viver e nos reencontrarmos nesse ciclo. Como a borboleta que abandona seu casulo, nascemos a cada abandono do que passou e sentimos a liberdade que é o vento novo batendo no rosto, abençoando nossas cicatrizes... Pequenas mortes selecionam e fortalecem o que há de melhor em nós, pois é isso que sempre resta. Os risos simples, os sonhos, a companhia da sua própria fé e o amor verdadeiro. Pequenas mortes nos salvam e nos dão pele nova pra transpirar, mesmo quando nem sabemos, mesmo quando tudo parece não fazer sentido. Elas nos relembram um pouco da nossa humanidade e da nossa fraqueza, quando percebemos que sofrer é inevitável em qualquer parte do caminho, mas que, às vezes, para que algo morra é preciso que a gente caia junto, no aguardo do nosso renascimento. E assim, entendemos que nesse caminho atropelado por descuidos, a nossa história deve sempre caber dentro de nós e não dentro do que os outros criaram para nós. 
Vale a pena morrer... Vale a pena o zumbido, vale a pena o silêncio, vale a pena o grito interior e o estouro, vale a pena cada lágrima, pois isso tudo é a vida - aquela mesma que um dia você deixou de lembrar que controlava.

15 de janeiro de 2015

Mais gelo, por favor.

Soundtrack: Ben Howard - Black Flies

Sem pressa, a pessoa que é sincera com seus sentimentos é aquela que não toma o suco de uma vez. É aquela que, talvez, prefira ver o seu gelo derreter para esperar o suco do outro chegar. Sem simplicidades, a verdade é capaz de definir uma memória inteira de alguém. Por ela, chegamos até as profundezas do outro e podemos vê-lo vestindo sua melhor ou sua pior lembrança.  Assim funciona o mundo de quem decide sempre invadir a vida das pessoas com esse papo de respeito às verdades, se tornando necessariamente destinado a ficar mexendo o açúcar do fundo do copo de suco. Por quê? Nem todos são assim. A necessidade de viver a verdade de cada coisa nos cega e não nos deixa nunca ver a opção “tanto faz” do outro. Tanto faz se precisamos nos preocupar com o que os outros sentem. Tanto faz se a vida é curta, se ela é leve e os chavões estão aí para a gente dizer sempre um grande foda-se para qualquer coisa que a gente sabe que não tem mais poder de controlar. Tanto faz se a vida tem tantas esquinas e que em nenhuma delas vamos desejar que alguém seja verdadeiro com a gente. Tanto faz um coração em paz, quando é mais fácil abraçar qualquer ideia simples de mastigar.


Poucas pessoas sabem viver a verdade, assim como digeri-la e assim se embrenham na mata do tanto faz. Poucas pessoas tem a coragem de sentir as coisas sendo fiéis ao que desejam, ao que são, aos momentos e acabam esquecendo como é a aparência dramática de não ser quem se é realmente. Pouca gente sabe entender o gelo derretido, o açúcar da espera no fundo do copo... E aos que vivem a verdade, resta a espera. Resta o corpo amolecido de tantas vezes que a racionalidade quis bater, mas o coração foi maior. Resta essa caminhada de ida e volta para a paz interior, mas sempre querendo bater nos muros dessa impermanência que é o tanto faz. Esperando cada tijolo da dúvida cair e sobrar somente aquilo que vale a pena. Mas até lá, espera-se, já que esperar faz parte da sinceridade. Esperar pelo inesperado não nos dá a chance de aumentar o valor do que vem, pois aquilo que se tem será sempre o tudo naquele instante. E só.

6 de dezembro de 2014

Ensaio


Soundtrack: Landon Pigg - Can't let go

Amar é como escrever um ensaio.
É criação, mas não tem provas para se basear: o amor é um passo no escuro. 
É poético, mas didático: o amor ensina.

Conheci João em um dia morno. Choveu pela manhã e a noite o tempo ficou estranho. Fazia calor, mas não tinha vento. Era como o sorriso dele, bonito, mas não tinha cor. João trocou somente três ou quatro palavras olhando para mim e eu não liguei. Não pareceu descaso, pareceu amor. Não precisou de roteiro, precisou de um abraço.  É como ver algo que a gente sempre desejou e perder as palavras. Quando eu amei de verdade foi quando eu menos usei as palavras. Com o tempo, João começou a falar mais e limpava minhas sujeiras interiores. Ouvir parecia tão melhor... Até que um dia, como tantos outros, ele parou o carro num lugar proibido. Um conhecido me ligou avisando e eu saí desesperada tentando impedir que levassem o carro embora. Sentei no capô, tampando a placa da frente com as pernas, enquanto o policial tentava escrever a multa. Ele parou o que estava fazendo, sorriu e disse: “você ama ele tanto assim?”. Fiquei sem palavras, sem ter o que dizer e aí percebi que isso poderia significar amor. Só dei um sorriso e consegui não ganhar uma multa. Minutos depois, João veio caminhando na minha direção e pela primeira vez, o sorriso dele tinha cor. Na verdade, naquele dia eu reparei o quanto ele ficava mais bonito sorrindo, de óculos torto e camiseta velha. Naquele dia, amei João e em tantos outros dias de quatro palavras ou mais.

Desconheci João em um dia quente. O sol entrou pela janela e acordei achando que era dia de trabalhar, mas na verdade era final de semana. Fazia calor, mas não tinha vento, assim como minha cabeça, cheia de ideias, mas sem nada pra pensar. Foi um dia estranho, seguido da necessidade de empurrar o peito para dentro com as mãos, impedindo o coração de sair. João levou embora a delicadeza e fez os tantos outros dias deslizarem pelos olhos com a velocidade das palavras, tão cheias de certeza. Não consegui mais imaginá-lo chegando, nem óculos torto e camiseta velha. Naquele dia não consegui ouvir qualquer barulho do mundo - fiquei surda para tudo que vinha de fora, competindo com todo o barulho de dentro. Foi como um dia em que a gente dormiu abraçados uma tarde inteira e quando acordamos já estava escuro, meu braço com câimbra e ele com dor no pescoço. Talvez seja isso... O amor dormiu e acordou diferente, cheio de dores e cansaços. Uma amiga perguntou: “você ama ele tanto assim?” e fiquei sem palavras. Pela primeira vez, isso pareceu um soco no estômago. Era injusto e não desejei que significasse amor. Não parecia amor. João tão cheio de palavras, pessoas, debates e eu sem nada pra dizer. João tão cheio de segurança, rancor, voz alta e eu sem nada pra sentir. Naquele dia, desconheci João e em tantos outros dias de quatro silêncios ou mais.

29 de novembro de 2014

A teoria das bolachas quebradas



Soundtrack: Tristan Prettyman - Say Anything

Por algum tempo cheguei a pensar que quando a vida parece não concordar com nossos planos, o melhor era simplesmente aceitar. “Siga em frente” é o que sempre dizem as placas durante o nosso caminho. Poucas são as de retorno e ainda assim, quando é preciso retornar numa estrada, temos que seguir em frente até algum ponto para, então, conseguir voltar. Deixar passar...Tudo na vida nos direciona para o que vem. Desde criança, quando deixamos a bicicleta com rodinhas de lado, seguimos em frente em duas rodas e nunca mais queremos saber da fragilidade dos desafios passados. Quando somos adolescentes, fazemos uma prova e se formos bem, nunca mais queremos saber o que erramos em uma questão. E então, viramos adultos, numa terra onde a regra do seguir em frente se torna mais banal do que nunca. Perdeu o emprego? Siga em frente. Terminou um namoro? Siga em frente. Seu carro foi roubado? Siga em frente. Os sentimentos se atropelam mais ainda e a única coisa que desejamos em alguns dias é uma ponte, que nos faça atravessar qualquer abismo mais rapidamente. A verdade é que a gente sempre quer pular para a parte feliz de qualquer história. Ninguém quer ficar para trás... Vamos ao ritmo das tecnologias, competindo programas que façam coisas mais geniais do que os antigos. Vamos no ritmo dos livros em tablets, dos cigarros sem cheiro, da pressa no trânsito, das entregas pela internet. Mas ainda assim, com tanto futuro a vista, ainda temos medo da tristeza. Temos medo daquilo que abate a gente numa sexta à noite, numa quarta à tarde, num por do sol ou em uma música. A gente tem medo da solidão e, assim, seguir em frente, parece sempre o melhor meio de não estar em casa quando ela tenta chegar. Às vezes, me pego ansiosa tentando visualizar um futuro, só que, ao mesmo tempo, tenho alguns medos quando ouso falar do passado. É mais fácil assumir que vamos errar um dia do que discutir sobre o que já erramos. É sempre mais fácil encarar a alegria, do que a tristeza com uma pitada de ausência. O que a gente nem sabe é que até mesmo a ausência é algo que está sempre conosco. Estranho né? Estamos sempre aqui no presente e ao mesmo tempo chegamos a desejar nunca estar no passado, sendo que ele também faz parte do que a gente é. A vida não isola nossas partes. A vida real não é como sempre poder escolher o pacote sem bolachas quebradas, nem como poder trocar a roupa que veio com algum defeito. Somos pedaços de um todo, jogados em meio as nossas decisões. Não dá pra sempre ser feliz. Aceite isso... Mas a verdade é que tudo seria mais simples se nos déssemos o direito de sofrer. Olhar para trás. Não querer seguir em frente, mesmo que por dez segundos. Se arriscar de novo não é pecado, mesmo quando tudo já parece ter sido o suficiente. Meça sua maturidade pela capacidade de ainda se emocionar e não pelo medo de parecer fraco quando a placa de retorno parecer ser a melhor opção. A vida começa quando você aprende a se carregar sozinho e nessa tarefa, não cabe a vergonha de ser o que você realmente é: coma as bolachas quebradas também. Sempre.

26 de junho de 2014

Interessa?

Soundtrack: City and Colour - Little Hell

As pessoas dizem que amar é ter interesse na vida do outro. Enquanto isso, perguntam desconfiadas: o que você fez de bom naquela noite em que não atendeu ao telefone no segundo toque? Para mim, amar é somente ter interesse. Sem saber no quê, amamos profundamente quando simplesmente ouvimos o outro contar cada detalhe daquele diálogo que ouviu na fila do banco ou de uma briga com um telemarketing, com o chefe, com a vida. Amar é tomar a decisão de ouvir, é também poder entender, também querer desconfiar e logo se lembrar de que amar também é uma escolha. Amar profundamente é conseguir chegar aos fatos com a delicadeza de um primeiro beijo, a ponto de que o outro não precise sentir a obrigação de atender ao telefone no primeiro bip e sim que ele queira atender o mais rápido possível, mesmo no meio da correria, para somente ouvir você dizendo aquele oi. Para fazer de uma única palavra uma rede na praia, no meio de um dia cheio de coisas ou somente cheio de nada. Amar é saber a hora de desligar, de não precisar saber mais, de dizer tchau, de guardar aquela curiosidade provocativa na gaveta. É saber a hora do profético “então tá bom”. E isso não é permissividade. É proximidade, é a própria fidelidade em palavras! 
Mostramos o verdadeiro interesse no que demonstramos implicitamente... Como fazer de um "boa noite" ou um "como foi o seu dia" despretensioso, um convite para sentar e tomar um vinho ali mesmo, pelo telefone ou no meio do trânsito. Somos egoístas quando nos achamos no direito de nos interessar pela vida do outro buscando respostas somente naquilo que parece gerar curiosidade em nós, numa espécie de conquista de uma mão só. Ficamos feito criança desbravando um tesouro de pirata que o vizinho disse existir no quintal, cavando por desconfianças que nós decidimos criar e que nem sabemos se realmente podem existir.  
Amar é se interessar pelos dois, é não precisar cavar fundo por respostas que chegam, é querer estar ali, não aceitando tudo e também não desconfiando de tudo. Amar é o interesse pelo que se é quando está junto e pelo que se quer ser quando está distante. É o próprio interesse, não pelos detalhes espaçados da vida do outro e sim pelo outro em sua vida, pelo espaço necessário para se conviver e pela arrebatadora dúvida que é o amor... que é amar. 

25 de janeiro de 2014

Da falta que a falta faz


Soundtrack: Patrick Watson - Sit down beside me

Tenho timidez da distância. Durante minha vida toda acreditei que a proximidade era como a crença de que tudo que é plantado precisa ser regado, ali, juntinho, perto. Tenho vergonha de conhecer a distância e fico vermelha quando me perguntam o que acho dela, porque eu diria "eu não acredito na distância". Mas, comecei a pensar que eu acredito no poder da falta em nós. Faltar é não ter perto, faltar é a própria distância. Viver as coisas já imaginando a própria falta delas é improvável (e cruel). É cruel como gostar de João, que acha que gostou de Maria, que nunca gostou de ninguém e anula o amor de todos. Por isso, o poder da falta é justamente ter fé que pode dar certo, porque não se quer acreditar no "não". É imaginar que dá pra fazer de tudo para estar sempre ali, porque a felicidade do "ali" parece impossível de ser roubada. Parece que ela não retira. Ela só traz. Traz o sorriso quando a gente procura um lugar pra não se soltar, um abraço em que a gente caiba, já que a cama ficou pequena pra dois ou mesmo pra um, quando se espera a chegada do outro. Ela traz a paz quando você acorda ouvindo a música que tocava naquele momento especial e é como fazer amor tomando café, mesmo na ausência. Mas traz também a espera. A espera de que tudo seja tocável. Para que o beijo não fique junto com o tchau ao desligar o telefone, para que a voz caiba nos ouvidos e não em mensagens de texto. Para que não pareça que só é possível colocar os pés na água, porque o rio é imenso e fundo. A falta é intensidade, como quem quer amarrar. É interrogação, como quem acorda sem entender, vivendo as probabilidades do não estar. A falta vira tudo quando não pode dar certo ou vira tudo quando a real vontade do coração é simplesmente amar e ter um abrigo nesse mundo desabrigado de permanências. A falta começa já pelo fato de se estar. E termina sabe-se lá onde.

5 de dezembro de 2013

Já dizia Boris Casoy: isso é uma vergonha!


Soundtrack: Chico Buarque - Geni e o Zepelim

Tem dias em que morro de vergonha de ser mulher. Dá vontade de pedir “ó Deus, na próxima quero nascer fazendo xixi em pé”. O porquê é muito simples: entender uma mulher é tarefa altamente complexa, até mesmo pra quem também divide aquele mesmo espaço com qualquer desenho de “menina” na frente da porta (o próprio banheiro feminino). Meu raciocínio lógico não parte do pressuposto que estou aqui para falar mal das mulheres, porque sendo assim eu teria que expor as várias fragilidades e “ridicularidades” que compõem o meu “ser mulher”. Mas brutalmente, me coloco disposta a debater uma temática que parece babaca, passada, mas que sempre tem um espacinho na vida (tipo aquele seu vestido preto eterno): homens. Dias atrás me apresentaram o tal aplicativo Lulu. Confesso que dei risadas, mas depois de um giro de dois minutos, deletei. Não ousei participar da “feira de domingo dos homens”, porque a partir do momento em que vou à feira pra falar mal da pamonha, o moço da pamonha pode muito bem me mandar ir dar uma volta e caçar uma pamonha melhor, AFINAL, essa é a lógica da vida (e quem nunca disse a poética frase “tem quem queira”?). Ou mesmo o moço da pamonha pode comentar com a feira inteira que “pior é ela que nem sabe fazer pamonha e precisa comprar”. Então, depois de algum tempo sem sentir esse tórrido sentimento, senti vergonha de ser mulher. Pra completar, a gente comenta a atual falta do “desconfiômetro” no mercado, uma famosa ferramenta que cabe em qualquer situação da vida. Vejo menina ligando de madrugada pra homem que tem namorada, mulher que provoca um caos em rede social por causa de homem e não podem faltar aquelas, que têm tanta coragem, que provocam pessoalmente(elas estão mais perto do que a vã filosofia imagina.. Experiência própria!). Aí você vai tentar ser madura e senta pra entender os motivos... Motivos? Não tem motivos! É só o gostinho mesmo (e a vergonha alheia). Você não faz nada, porque não é de arrumar briga, mas o tórrido sentimento retorna: vergonha, vergonha, vergonha. Aí pra enraizar de vez, vem aquela clássica mulher machucada que ao invés de tentar entender porque tudo acabou ou mesmo aceitar, evoluir, partir pra outra, prefere postar indiretas no facebook, fazer o tipo misteriosa e, claro, falar mal da pamonha na feira (quando a “pamonha” não vira a nova mulher).
Olha, confesso que tenho N motivos para as pessoas morrerem de vergonha de mim: minha risada é alta e eu também sou alta pra caramba, então acabo andando meio torta, não sei andar igual modelo em cima de um salto, eu falo palavrão, nunca comi com mais de 3 talheres numa mesa e não sei diferenciar os nomes dos carros (pra mim, Montana é igual Strada) e nem os diversos tipos de macarrão. Mas, tenho orgulho de dizer que não sou de falar mal da pamonha alheia. As pessoas não estão numa vitrine para serem compradas, avaliadas, julgadas. Vejo muita gente tentando opinar em situações das quais elas não conhecem nem o enredo, somente os personagens. Aí vira um tal de “Ah, fulano é mais velho... Ah, certeza que é gay... Ah, ela roubou o namorado da outra”. E até chegar no próximo ouvido, a história já virou novela das nove. Eu já sofri, já fui trocada, já fui largada, mas não desisti de ir à feira porque em algum momento eu pedi pamonha de sal e trouxeram de doce. A vida mesmo se encarregou de mostrar que tudo que eu aprendi valeu alguma coisa, tanto que hoje estou feliz comigo mesma e meu relacionamento. Cansei de ficar compadecida a esse tipo de complexidade feminina, porque não me encaixo nela e não vejo sentido em quem vive assim. Não joguem pedras nas Genis sem saberem as histórias das Genis! A essas mulheres misteriosas, charmosas, impiedosas e críticas fica o meu apelo: não fiquem caladas só porque vocês não tem o que falar, fiquem caladas porque talvez assim vocês pareçam sábias e quem sabe, interessantes.

Sobre a vergonha masculina, a gente comenta outro dia...

31 de outubro de 2013

O poder do primeiro plano


Soundtrack: The Fray - How to save a life

Viver no primeiro plano faz surgir das profundezas a necessidade de achar a simplicidade nas coisas versus a dificuldade de encontrar onde ela está em nós – ou somente onde estamos nela.  Há sempre algo em tudo que não conseguimos responder. Até onde vai a nossa real vontade de conhecer a resposta? Vai de cada um. Uma vez me disseram que, pra sermos feliz, a vida tem que ser feita de menos certeza. Não sei até que ponto as certezas se igualam as nossas vontades, mas prefiro acreditar que já nasci com a certeza de ser feliz (ou, ao menos, querer ser). Preferi optar pelo lado em que não questiono onde aquele caminho ia dar ou mesmo porque esse caminho me trouxe aqui, exibindo meus ganhos e fracassos. Eu me trouxe até aqui, sem achar nada simples de resolver, até mesmo o amor pelas coisas que me foram entregues sem entendimento. Eu me trouxe até aqui, carregada pelas pessoas das memórias e pelas memórias das pessoas. Nada é individual vivendo no primeiro plano, nenhuma certeza, nenhuma vontade, nenhum desejo. Em tudo consegui achar o que os caminhos me entregaram, mesmo quando fui retirada. Eu escolhi ficar aqui, na beira da dúvida, pendurada pela minha crença nas coisas que podem vir. Eu optei pela impermanência e é ela quem segura meus dedos quando eu tento desistir. É ela quem me diz que tudo passa, porque nós estamos só passando, vivendo entre nosso primeiro plano e o segundo plano dos outros. É ela minha vigia, minha professora das verdades sobre o tempo. É ela quem tira todo o barulho e faz com que eu me ouça melhor. É ela quem tira todo o medo, por saber que a impermanência sempre chega e, uma hora, o ciclo acaba. Ou, só muda de lugar. Ainda não consigo definir a simplicidade de ser feliz, por não saber se eu vivo nela ou ela vive em mim, mas acredito que nada é aleatório quando se decide conhecer a resposta, como eu optei por fazer.Talvez, porque a resposta seja somente o poder de ser quem a gente realmente tem quer ser. O poder de não conseguir responder tudo, para que se possa viver tudo.

4 de junho de 2013

Aquilo que cabe em 1,79 por não sei quantos cm de cintura


Soundtrack: Gal Costa - Futuros Amantes

Tem dias que me sinto atrasada na vida. Inicialmente, quando as pessoas decidem discutir liberdade. E de modo pouco redutivo e não menos humano, quando falo a palavra liberdade a mesma não me remete à escravidão humana, essa coisa doída que nem sei discutir e imaginar conviver, pois como costumo comentar "existem assuntos que eu não entendo o porquê de ainda existirem". A liberdade humana pra mim é algo natural, o poder de ir, vir, querer voltar, recusar ou ficar. Por isso repito: não sei discutir essa doença que atinge alguém a ponto de prender alguém em nome da servidão pessoal, essa doença que chamamos de poder. Então, me retiro e passo a discutir um outro tipo de liberdade, porque estou chegando a conclusão que tenho uma mania (a qual tem me fadigado) de querer ver amor em tudo. Não é uma opção, é meio que uma decisão inconsciente. Quando vejo, os assuntos que quero discutir parecem deitar num divã e ficar repetindo: vamos falar de amor, vamos falar de nós. "Nós" sempre foi um assunto muito discutido por mim nesse blog, talvez porque eu gerei, criei, inventei, vivi muito "nós" (alguns foram nós mesmo, no sentido laço da palavra). Alguns textos foram sobre os desatamentos do nós, outros sobre o surgimento, mas sempre  sobre nós. Uma pessoa versus alguém. Digo versus, pois é daí que início meu julgamento de liberdade espiritual ou pessoal, como queiram. Relacionamentos são embates e por isso me sinto atrasada, pois descobri que eu sou a maior competidora de liberdade num espaço de 1,79m por sei lá quantos cm de cintura (ou seja, eu mesma). Eu não sei competir se sou mais bonita que as atuais dos meus ex, não sei competir se sou mais elegante, essas coisas babacas que mulher faz (digo no geral porque tem muuuuuita mulher assim, acreditem mocinhos!). No final dos meus relacionamentos ou mesmo em simples textos do blog, a única competição que eu gero é: eu/personagem sou mais livre que elas? Já fui muito julgada pelos homens por querer introduzir neles essa briga pelas suas liberdades pessoais. Já tive pessoas que pediam, no tom de exigência, mensagens antes de sair para qualquer lugar e isso não era para me privar da liberdade física, porém isso me privava da liberdade pessoal. Esse mundo adiantado exige que as comunicações tenham horas marcadas, surgimentos nos chats, respostas imediatas para inbox, sinalização de "já visualizado" quando às vezes o que vai mudar a ordem é eu ligar um pouco mais alegre depois de duas cervejas ou depois de um filme romântico com as minhas amigas, dizendo que amo/sou/queroprasempre, mas como eu já tinha ligado pra falar que eu estava indo fazer tal coisa morro de preguiça de aparecer de novo. Sou meio fugitiva das faltas de liberdade pessoal e já me ferrei muito por causa disso. Já fiquei como a malvada, manipuladora, individual. A verdade é que eu só parava de sofrer depois que eles arrumavam outra pessoa e eu me sentia livre no comparativo (sendo que a segunda verdade é que eu sempre fico com saudade de quem eu amo, onde quer que eu esteja, alguém acredita em mim, por favor, obrigada).
Resumindo: eu amo falar de amor e amor pra mim é ser livre. Carpinejar (um idolatrado escritor que pra mim toma hormônio feminino, porque nunca vi conhecer tão bem uma mulher) diz que "liberdade na vida é ter alguém pra se prender". Quando li isso achava que um dia eu teria que me prender às pessoas para saber o que realmente é amar, ficar junto demais, fazer tudo junto, porque prisão me remete algo muito físico. Até que descobri que prender-se em alguém é ser tão livre a ponto de uma alma voltar para a outra alma, mesmo depois de uma noite separados, um almoço distante, uma briga meio sem jeito, uma ida demorada numa outra cidade ou até mesmo no banheiro. Já amei de cara pessoas que eu mal sabia quem eram, já deixei de amar pessoas que eu posso descrever até a cara de nervoso. A semelhança entre elas? Nenhuma. Ninguém é igual. Aceite isso e a vida será mais fácil. A semelhança quanto a mim em todos os relacionamentos? Acreditei na minha liberdade. Quando sei que perdi alguém, sei que ganhei mais de mim, pois em cada pedaço vou fazendo os nós que um dia me farão ser um "nós", assim como vou aprendendo a me desatar mais fácil. Sei que quando falo dessa coisa de deixar ir, mesmo quando se está ou deixar ir quando não há mais nada visível é algo meio sem propriedade, pois nunca ninguém vai de verdade. Tem quem acredita, tem que me ache louca. Eu ainda me lembro do primeiro paquerinha que eu tive toda vez que eu ouço uma música do CPM22. Lamentável, porém real. No fundo, eu acho que só acredito no amor, nessa babaquice que é procurar liberdade onde todos procuram um cheiro bom e um buquê de rosas. Amo gente livre e assim abro meu dicionário: amor pra mim é ser sempre livre, pra nunca ter medo de voltar, nunca ter medo de se achar errado, nunca ter medo de encontrar o certo.

9 de março de 2013

Sobre estar viva


Soundtrack: Rihanna feat.Mikki Ekko - Stay

Aqui estou eu, observando o que o mundo faz. Não falo da vida dos outros, falo da minha. Aqui, no canto das memórias, me sento, um pouco temerosa de sair dos corredores que falam de coisas que já se foram. Observo, tentando entender o que realmente quer dizer "aqui". E pergunto: onde realmente é nossa vida? Onde ficamos? Em que ponto fomos deixados? Viver é um contudo. É ser acordado pelo tempo, batendo na porta, te mandando juntar os pedaços para atravessar mais uma ponte. Viver é machucar os dedos, atando e desatando nós durante anos e almas. É conviver com esse medo do café ter ficado amargo e ninguém mais ter vontade de beber. E convenhamos, ninguém gosta de café amargo e morno (muito menos requentado). Há dias em que desconfio da nossa coragem, coisa que Deus dá logo nos primeiros dias de vida, fazendo você levar por volta de 3 meses para realmente enxergar perfeitamente o mundo. Coragem é essa coisa imperfeita que te diz pra ir, quando tudo que você quer é dormir, não ouvir o tempo bater na porta, não juntar os pedaços, não atravessar as pontes. Ou quando você quer morar na mesma casa e ter os mesmos amigos ou não tirar seus livros do lugar, não empacotar pertences, fazer malas e devolver as chaves daquela época. Coragem é essa coisa persecutória que surge nos momentos em que você não já não cabe mais e tenta parar de dançar de acordo com a música repetida. Coragem é rebeldia e exige uma péssima memória (e um desequilíbrio momentâneo e instintivo). É abrir mão do que temos por um segredo que não temos: o que vai ser? Quem eu serei?
Das certezas da minha vida, tenho por mim que continuarei esquecendo datas importantes, tendo dificuldade de ler as horas nos relógios analógicos e sentindo saudade de tudo que eu perdi para o passado. Sentindo saudade daqueles momentos em que, na época, eu dizia odiar por ter hora de voltar pra casa, mas que hoje eu assino como alguns dos melhores momentos, porque o que se foi é sempre onde a gente tentou ser mais feliz na vida, mas nunca sabemos disso na hora. A verdade é que o passado nunca se resume a uma coisa só, como essa história das "coisas que estão para chegar" (e chegam duma vez). O passado é aquela massa concreta e até defeituosa, mas certa. E nós, humanos, gostamos da virtude que é a certeza.
Tenho ouvido os sussurros do tempo se aproximando: "Quem você será? O que vai ser da sua vida?". E acordo assustada. Pela primeira vez, nos últimos anos, não quero ouvir que é hora de deixar o corredor que eu tenho vivido por quatro anos, diariamente, intensamente, para atravessar a ponte em meio a essas coisas marginais, pouco sabidas, irreconhecíveis no escuro da dúvida. É como retornar ao nascimento. Acordar vendo vultos e ouvindo vozes desconhecidas, na espera de reconhecer o meu novo lugar no mundo.
Ao meu presente, afirmo: não vou despedir de você. Que vire passado e que ele sobreviva em mim, correndo pelas veias, reciclando meus juízos, verdades, mentiras. Que eu seja a incógnita dos desvios de estar viva, abençoada pelas lágrimas do que cabe nas minhas mãos. É hora de esperar pela reforma do olhar. É hora de enlouquecer de coragem. É hora de crescer. Enloucrescer.

4 de fevereiro de 2013

O poder dos 5 minutos


Soundtrack: Florence and The Machine - Shake it out

Sabe que eu até gosto desse negócio de te reparar bastante. Parece que depois que você vai embora, faço um mapa de cada pequena coisinha sua pra que eu tenha companhia. Como quando você sai do banho com os olhos um pouco vermelhos e eu fico pensando se você é tão forte que nem os fecha quando cai sabão. E tem também o modo que seu cabelo se ajeita e em 5 minutos você já parece estar pronto, com os dedos enrugadinhos feitos pra encaixar nas voltas da minha pele. Aí você coloca qualquer roupa torta só pra que eu fique te ajeitando, enquanto você vira a cabeça pro lado como se negasse meu cuidado de mãe, porque logo depois você me beija como amante. E em 5 minutos perto de você, meus dedos tem seu cheiro e meus olhos tem seu abraço. Como quando você ri da minha falta de habilidade até pra cortar um tomate e logo me olha como se dissesse: é só um tomate, manda a ver. Já que em 5 minutos, você vai perder a paciência, pegar outro tomate e cortar bem mais bonito que eu. Ou quando no meio de uma conversa você me olha e depois de 5 minutos pergunta: você cortou o cabelo? Ou mesmo algo mais direto como: você não lavou o cabelo hoje?
Hoje quando acordei, fiquei pensando como seria parar de viver de 5 em 5 minutos. Como seria parar de esperar pelos seus 5 minutos de ação, rebocando qualquer sentimento de medo da minha estradinha velha e surrada. Fiquei pensando como seria explodir sem procurar aquele seu ponto intocável, onde nada se abala pra que eu entenda que a vida pode ser mais simples. E me perdi no tempo. Foi como viver uma hora em um pensamento. Foi como ver o dia cair e logo ter que colocar pijama na espera de outro dia que vai nascer. Foi como não ter pelo que esperar, foi como ser criança e esperar pelo momento do seu desenho preferido que saiu do ar. Dentre tantas palavras de 5 minutos que talvez pudessem caber, as únicas que sobraram foram as que encaixaram no tempo do último tchau, do a gente se vê... meio sem jeito de se ver. Foi o ponto final onde até hoje só couberam reticências. E então entendi que a maior mágica é dos que choram rindo, como quem sempre viveu sem saber o que esperar. Como quem perdeu coisas a ponto de compreender que no fundo as pessoas ganham quando se perdem. Que as pessoas mostram os dentes sorrindo até quando choram. Que quando se chora é a abertura para que Deus entenda nossa confusão e que Ele perdoe a nossa falta de jeito com o que não entendemos, pra que Ele também entenda o poder dos 5 minutos. Os 5 minutos de desistência quando nossos pés não querem encontrar o chão ou quando a gente só quer dizer: "que merda de fase é essa?" que faz a gente voltar procurando todos nossos pecados no passado, sendo que a gente sempre acaba na mesma frase "eu não sabia nada da vida naquela época". Mas e agora? Eu acho que ainda não sei nada da vida. Eu que sempre fui viciada em falar de amor, eu que sempre sentei ouvindo as pessoas que queriam falar de amor me achando mestre na qualidade de conselhos, eu que não soube falar do meu amor em 5 minutos antes de só ter o tempo de analisar suas costas, pela última vez. Eu que no poder dos 5 minutos só consegui chorar. E talvez foi no meio daqueles minutos em que tudo ficou mais claro : ainda existem pessoas que acreditam nos nossos erros, que estão dispostas a pisarem na grama que pinica só pra ver a gente apreciar o prazer das pequenas coisas (que ainda assim pinicam). E existe quem dança quando a gente pede, existe quem arregaça o coração pra ver a gente sorrindo, assim como existe quem segue em frente e arregaça nosso coração. As pessoas só existem em meio à dúvida que é esse voo para não sei onde, às vezes primeira classe, às vezes porta do banheiro. E daqui da porta do banheiro, tento ainda dizer: entendam o poder dos 5 minutos. Ele acontece nos momentos em que você faz dos 5 minutos a duração de um pra sempre. E então, ele começa outra vez.

31 de dezembro de 2012

Doismil e treze


Soundtrack: Nina Simone - Feeling Good

Olhando daqui do último dia do ano, Janeiro ainda parece uma criança. Um mês um pouco imaturo, porém com toda a surpresa do que virá. Janeiro nos exemplifica a fé no que não podemos ver. Dezembro hoje termina com uma respiração profunda, como todos os finais que nos trazem recomeços. E perguntas... O que fiz por mim nesse ano? E em qual momento soube deixar de pensar em mim? O fim de ano sempre acompanha um clichê de revolução interna, como parece nos dizer o facebook, as mensagens à meia noite, abraços e votos. Se assim fosse, seria realmente incrível. Acredito que a energia que nos acompanha durante os últimos dias do ano iniciam nossos primeiros passos no desconhecido. Mas acredito mais ainda que temos o poder de decidir o que vivemos, em todos os dias da nossa vida. Deus nos acorda doando diversas oportunidades para vivermos e ainda temos a capacidade de transferir todas nossas culpas para Ele, em alguns momentos. Deus nos dá 365 dias para recomeçarmos, porém precisa de nossa coragem pra que possa se manifestar em nós. Somos metades espirituais e pra que sejamos ouvidos, precisamos ouvir. Quantas vezes nesse ano tentamos ouvir nosso coração? Ou mesmo alguém que falasse por meio do nosso coração?
Somos pessoas que adoramos as possibilidades, mas quase nunca sabemos tirar o melhor de todas elas. 2012, como qualquer ano, me trouxe mágoas e trouxe gratidão. Nessa roda de ciranda que é a vida alguns entram, alguns saem e alguém sempre dói. Mas tem quem brote. Tem que nos dê flores e frutos. Sempre tem quem nos abrace com os olhos, que nos responda aquilo que nem conseguimos dizer pra nós. Essas pessoas são as que eu quero guardar no espelho de casa em 2013, porque mais do que ter, antes é preciso ser.
Meu pai, há algum tempo, me apresentou uma música que só agora veio marcar muito minha vida. "Feeling good" se tornou uma terapia para todas minhas calamidades humanas. Na voz de Nina Simone, 2012 me ensinou a conversar com Deus. "You know how I feel"... Entrar em 2013 é como chegar no meio de uma ponte. É como dar os passos sabendo de onde se vem e para onde se quer ir, mesmo sem saber o que pode ter lá do outro lado. Mas sabendo que o cuidado nos passos, um sapato confortável e talvez uma boa companhia ou uma boa música, pode fazer tudo ser mais simples. Pode fazer tudo ser mais nosso, pra que a gente tenha propriedade em ser feliz e se divorciar dos medos. Que em 2013 saibamos que abraçar com os olhos fechados é mais gostoso e que sejamos nós para que os outros sejam eles. Que tenhamos tesão intelectual pelas pessoas interessantes e que possamos viver paixões dilacerantes, para diferenciarmos o que é amor. Que muitas músicas sejam trilha sonora de dias tristes e dias felizes, mas que não falte música (nem no outro mundo). Que conversemos mais com Deus, aprendendo a agradecer, para que assim nossos desejos sejam mais justos, sem precisarem ser curtos. Que perdoemos o outro e que nos perdoemos. Que deixemos ir aqueles que não souberam ficar, que entendamos que o "adeus" pode fazer sentido. Que haja saudade, que gargalhemos com o corpo todo, que sejamos donos vitalícios de nossas alegrias, conquistas e até mesmo tristezas. Que sejamos donos de nossas vidas... pois como diz a minha música de 2012: "it's a new dawn, it's a new day, it's a new life for me... And I'm feeling good". Todos os dias são assim: um novo amanhecer, um novo dia, uma nova vida. E que se sentir bem a qualquer custo seja a nova regra do ano ímpar. Feliz 2013!

15 de outubro de 2012

Sentença do emotivo



Soundtrack: Keane - Somewhere only we know

O problema da pessoa emotiva é que ela valoriza muito o que deve viver. Não é que falte entendimento, não é que o coração não soluce pedindo arrego, simplesmente é uma opção: opta-se por viver aquilo que sempre exige sentir demais. A pessoa emotiva é daquelas que chega a contabilizar quantos medos estão no seu coração em um domingo, às 2 horas da manhã. E acorda na esperança de que o sono tenha solubilizado pelo menos uns dois deles pela manhã. A pessoa emotiva se analisa, tentando observar no passado qual o traço dessa loucura que é amar integralmente todas as coisas que absorvem dela o simples fato de sorrir sem vergonha. A pessoa emotiva hiperventila, ela se autodilata, aumenta a permeabilidade de todas as suas membranas quando se ameaça um simples silêncio ou qualquer primeiro passo para um gostar, ou esquecer, ou deixar ir, ou não permitir. A pessoa emotiva acorda no meio de um abraço pensando se as frases estão se repetindo, se a história está crescendo, se ela está sendo justa com as suas expectativas ou se é só mais um medo pra passar a noite, enquanto a verdade é que não consegue assumir pra si que em qualquer história, alguém nunca vai conseguir se salvar em um dos parágrafos. Enquanto ela não assume pra si que ser emotiva é um estado que sempre a deixa na lista dos que não se salvam.
A pessoa emotiva é aquela que teima em ficar, mas também teima em sair. E no final de tudo, repetidamente, cai no mesmo ponto: o cansaço cíclico. Em algum momento, os dedos já perderam a força de tentar segurar o tempo das coisas e é exatamente por cansar, que o emotivo continua tentando. Porque é bonito. Porque exige alma. E porque também dói. O que a maioria dos não-emotivos não entendem é que doer não anula a possibilidade de ser feliz. A dor de qualquer um só fica guardada em alguns cantinhos e vezenquando se volta lá pra buscar. Nesses dias de dúvida, o emotivo decide (mais uma vez) que vai caminhar numa estrada com placas de aviso afixadas, em letras garrafais de cor vermelha, delimitando seus limites de espaço pra se proteger dos sentimentos desavisados. Até que um dia, num cochilo durante o horário de resguardo, um sorriso sequestra qualquer medo, arranca as placas, a segurança cai e o alarme berra. A verdade é essa: o emotivo não descansa, não entra em desuso. Ele ama muito e ama menos, mas nunca deixa de amar. Não tem imunidade, não tem coerência. O emotivo é aquele que vive exausto nos finais, que sempre se pergunta se cheirou o pescoço do outro do melhor jeito, que faz da felicidade uma eterna pergunta e assobia a dor do jeito mais lindo. É aquele que olha a lembrança e não sabe se a queima ou se queima a si. É aquele que no fundo nem sabe se é ele ou se é outro. O emotivo é o sonho de qualquer racional que queira saber o que é amar, doer... O que é ser metade sempre pronta pra ser inteira.

16 de setembro de 2012

Sobre uma certa pessoa errada



Soundtrack: Death Cab For Cutie - Transatlanticism 

Estou aqui, te dando o poder de decisão. O tempo de pensar se o personagem principal sou eu. Ou se é você, me fitando, ainda tentando entender se sou uma vírgula ou um ponto final. Te dou o tempo de tentar me ver além dos farelos da minha indecisão misturada com medo, na espera de que no final de tudo eu acabe inteira, dessa vez. Chego mais perto e encosto no seu braço, como quem esbarra sem querer. Arrepio. Não sei se é arrepio bom ou daqueles quando o giz risca o quadro, esse que quer dizer: isso não vai dar certo. Quase arrisco a perguntar se você também sentiu esse arrepio. Se você também quis esbarrar em mim e fazer tudo parecer lance do acaso. Mas tenho medo de que o seu não destrua o jardim que eu já imaginei pra gente rolar na grama, que ele leve embora o meu sim ou até o meu talvez. E aí a gente continua ali, perto, fingindo o brilho no olhar, quase ganhando o Oscar de melhor "escondendo que se gosta". A gente troca umas risadas, fala do passado, evita falar do futuro, quando o que mais se tem vontade de dizer é o quanto a gente queria bagunçar nossa vida com essa coisa toda. Parece que a gente precisa fingir que é tudo tão dificil, só pra ter a emoção de colocar tudo a prova. Ainda tento regar a esperança de que você seja aquele cara idiota, fajuto e carente, igual a tantos outros, que eu prometi pra mim mesma não gostar. Mas a única coisa que passa pela minha cabeça é o tamanho do seu abraço e do quanto eu caberia ali, feito um domingo encostada no braço do sofá. Chego a pensar que as pessoas até ficaram mais legais depois que você apareceu, que talvez valha a pena chegar mais perto e te dizer que seu cheiro é mais gostoso quando é o meu nariz que te cheira. Que talvez você aceite ficar ao meu lado, porque a gente já se cruzou mesmo nesse caminho meio torto e incerto e agora só resta a gente sorrir mais do que o rosto pode suportar. Chego mais perto de você e quase consigo te imaginar tirando a blusa, caindo em cima de mim e dizendo que faria isso quantas vezes fosse preciso só pra me ver te olhando daquele jeito, meio que virando os olhos, como quem acha que aquilo é errado. Te olhando, começo a rir por dentro e concluo que nossas maiores vontades estão nas nossas maiores resistências. Que a gente só tem medo daquilo que tem espaço num cantinho da cabeça, mesmo que a gente não queira pensar. Que a gente sempre prefere o que é errado e verdadeiro, ao que é certo, mas não oferece amor no caminho. Então, você decide: a gente vai ser feliz agora ou um dia? Até lá, me deixa imaginar que eu sou o domingo e você é meu sofá.

9 de agosto de 2012

S.O.S



Soundtrack: Yann Tiersen: Comptine d'Un Autre Été

Salvem o amor. Sejam maleáveis como a água dançando em um copo, sejam firmes como o abraço, sejam bobos como os apaixonados. Salvem os domingos tediosos com pipoca e beijo, salvem os abraços de conchinha, aqueles em que se cansa 10 minutos depois, mas que parece ser a bíblia da comunhão. Salvem o amor. Aquele que rouba a coberta enquanto o outro dorme, da barba na nuca até o fim do dia, até nunca mais. Salvem aquele amor que se pega, se deixa, se odeia por minutos, se ama por uma noite. Se ama pra sempre ou aquele que nunca mais vai se amar (até o nascer do sol). Salvem aquele amor que aconchega, que une os narizes gelados com o vento na rua, que une os olhos, que une as mãos. Aquele que te salva de um coma sentimental, que te apresenta a felicidade, que senta no seu colo e quando você tenta fazer o mesmo, veste uma cara de que você pesa uma tonelada pra ganhar um tapinha seu. Aquele que te deixa com cara de brava só pra te ganhar com os dedos, que passam pelos seus cabelos como quem limpa o resto da cobertura do bolo. Salvem o amor, aquele com o gosto do primeiro gole de cerveja, com o gosto desajeitado do primeiro beijo, com gosto de água depois da comida salgada, mas com o mesmo cheiro de sempre. Salvem aquele amor que dirige e bota a mão na tua perna, como quem diz "eu te guio". Aquele que anda e bota a mão na tua cintura, como quem diz "eu te seguro". Salvem o amor, com um laço perfeito, sem embrulho caro, mas com a velha desculpa de que "não sabia o que escrever no cartão". Salvem aquele sentimento onde ninguém se persegue, mas que ainda assim se precisam. Salvem o amor, com menos calcinha bege, mais cueca boxer, com rendição de atrasos, com perdão de esquecimentos. Aquele que te diz "saudade" parecendo dizer que o time ganhou, que te pergunta se você fechou a janela, se você resolveu seus problemas de gente grande. Aquele que pede a cerveja, que divide a conta, que te dá uma música, que te rouba uma música. Salvem o amor, com menos armadilhas tecnológicas, com mais cama, mesa e banho. Salvem o amor próprio, o amor cego, o amor não-usado, o amor perdido, o amor encaixado, o amor que está por vir. Apenas, salvem-se. Apenas, amem-se, apesar do "se", apesar de.

20 de julho de 2012

Conversando com estrelas



Soundtrack: Bon Iver - Holocene

Por mais de cem vezes tentei repetir: a gente não dá certo. A gente não dá certo, respiro, baixinho. Soluço. A gente não dá certo mesmo. Mas e agora? Existe mesmo esse negócio de pedido pra estrela? Nesse frio imagino as estrelas lá no céu, discutindo: olha lá, mais uma pessoa ali pedindo um amor de verdade. Poxa, estrelinha, dá uma força pra gente aí. Ouve meu pedido, meio questionando, meio tentando entender: a gente não dá certo. Mas o que é o certo? Felizes para sempre, um cachorro peludo correndo na grama e a gente sorrindo feito garotos propaganda de pasta dental? Não sei. Sei que viver isso, assim, não é certo. Essa mágoa, essa coisa esquisita de dizer que "te perdi", mas eu tive você? Essa coisa de explodir, jogar gasolina, botar fogo, falar mais alto que a musica no fundo, só pra você me dizer: a gente não dá certo mais. E nessa frase fica um doce, eu ganho de você um "mais", fazendo acreditar que a gente já deu certo. E aí te olho, digo que você é lindo e você me trata como se eu fosse a tiazona da família, aquela que apertava sua bochecha e dizia: nossa, mas você tá grande, bonito. Não, porra! Eu te acho lindo, porque eu te amo. E por causa disso fico seca. Por causa disso me culpo, porque sempre prefiro ver o botijão explodir mesmo sabendo que você vai dizer isso. É como se ficar perto de você me fizesse entrar numa casa quentinha, com quadros bonitos na parede e com você esperando no sofá, com uma faca e uma flor. É lindo, mas dói. É como ficar surdo pra conseguir sorrir, como ficar cego pra poder sentir. Não digo que te amo pra ter as palmas da platéia, que pega até a pipoca pra me ver ali, tentando redimir meu erros, enquanto você nunca fala em acertos. Ou talvez digo que te amo porque me acostumei. Mas sei lá, eu cansei. Cansei desse medo, de brincar no meio fio e nunca conseguir dar mais de cinco passos seguidos, de não ter um relacionamento com mais de 5 passos, por causa do seu "mais". Felicidade que ficou lá atrás bloqueia caminho aqui na frente, deixa gente aleijada sentimentalmente. A gente diz que dói, diz que fere, vê que sangra, mas ainda assim fica mais fácil do que voltar atrás de "felicidade velha", é como se proteger. Você não diz que foi feliz comigo primeiro, antes disso vem sempre a frase: você me machucou. A gente desaprendeu o caminho. Eu desaprendi isso que é o namoro, cuidado, mãos dadas. E você escondeu todas as pedrinhas que eu tinha deixado pra tentar voltar. Então, fico oca e lá de dentro ecoa: a gente não dá certo. Mas quer saber? Eu dou certo. Eu sou bacana. Eu mereço dar certo. Agora fica decidido que eu quero só gente de verdade, menos expectativa, mais pedrinhas pra novos caminhos, porque eu não desaprendi de amar. E até o texto chegar aqui, já repeti mais umas dez vezes que a gente não dá certo. Falando com a minha estrelinha, decidi fazer um pedido melhor: não quero mais chorar por felicidade velha.

14 de junho de 2012

Entre bulas e remédios da vida



Soundtrack: Caetano Veloso -  Você não me ensinou a te esquecer

E então chego na farmácia e peço: me vê umas doses homeopáticas de uma decisão livre e totalmente cabível a uma felicidade relativamente próxima. O farmacêutico me olha e ri: "isso a gente não tem não, moça. Você é tão bonita, por que a tristeza? Vai ser feliz ou vai acabar sozinha em um bar". Não sei até que ponto pareci uma bêbada, talvez pelas voltas nas palavras, talvez pelo bafo de solidão."Eu gosto de cerveja gelada, moço, mas tô precisando é de solução", essa foi a resposta que um lado profundo de meu cérebro programou. Até que meus pés começaram a se movimentar e me levar. Sensação de "tô por aí?", sacomé? Imagino pelo menos 9 em 10 pessoas que sentem isso agora, essa outra provavelmente está presa numa cadeia. Pois é, essa sensação que faz você vezenquando parar numa esquina e aceitar a dica de um farmacêutico, que prefere te dar uma boa pinga do que um rivotril.
O bar... O bar é um território dos amores. Gosto de dizer isso. Sempre me perco observando as pessoas sentadas, a histórias delas. Imagino amores subversivos, impermanentes. Relato para meu subconsciente pés na bunda, morte de vô, encontro de gay. O bar sustenta um clichê de beleza pessoal, espontânea (ou totalmente derivada do álcool), uma beleza calculada. Sento, cruzo as pernas e relato: as pessoas são felizes acreditando em qualquer coisa. Quem sabe de um olhar ao som de Nando Reis, você ganha um par de escovas de dentes no seu banheiro ou quem sabe, o Nando Reis nunca mais tenha o mesmo gosto. O bar é essa dualidade. Analiso um casal e imagino eles trocando o chiclete, beijando sem escovar os dentes. Criando apelidos, dando beijo de esquimó, saindo para almoçar. E ela treina um strip tease, compra uma roupa nova, faz um fettuccine ao molho branco. Ele muda as músicas do carro, pergunta se ela gosta do perfume, não toma mais café antes de encontra-la. E eles compram pipoca no cinema, se beijam e reclamam das pessoas conversando. Arrebentam nas cenas de ciúmes, brigam por quem ama mais, arrebentam nas cenas de ciúmes (de novo). Conversam enquanto tomam banho, compram almofadas novas para a casa dela, vão ao supermercado e abrem um pacote de jujubas escondidos. Eles decidem que a cerveja é Brahma e que quando tiver mais grana, pode rolar uma Original. E ela diz que ama a barba mal feita dele, ele diz que ama ela de pijama, mas ama mais quando a alça do sutiã fica a mostra (e sonha com ela nua). E eles se abraçam e ouvem Nando Reis, enquanto a mãe dela pergunta sobre ele. Enquanto a mãe dele quase não pergunta sobre ela. E aí o tempo se perde e naquele momento, já nem faz mais diferença o que é aquele bar. O que são aquelas pessoas. Pra eles, eu não sou nada. Eles se bastam, ali, efêmeros, eternos. Eles se bastam ali, nas suas doses homeopáticas de uma decisão livre e totalmente cabível a uma felicidade relativamente próxima.
Eu fecho a conta, volto para a casa, mantenho a dúvida. Penso sobre essa relatividade de acreditar que coisas boas virão, que a gente consegue se sustentar nas mãos dadas. Nessa coisa de apostar no silêncio dos olhares, na instabilidade do destino. Ou nessa coisa de se debater em crer, parar de olhar pro lado, criar o discurso de final, já treinar o tom do desculpa. Sustento essa ideia de que tenho pena da gente, dessa insustentável leveza de aparentar "ser feliz", enquanto estar sozinho é como comer chumbo. Mas às vezes, tenho alegria do que a gente consegue ser, do "eu te amo" sincero, sem precisar de muita coisa, evitando, por gentileza, muito melodrama. Evitando o rancor quando é só "tchau, se cuida" ou quando não é mais nada. Olha, a gente pede tão pouco pra ser feliz, a gente até acredita em trevo de quatro folhas. A gente desvira o sapato e protege as nossas mães todas as noites, a gente acredita nas canções de amor, a gente gosta de sorrir, a gente gosta de amar e ser amado. Então, por que a gente chora? Por que a gente não acredita mais? Por que a gente pede doses homeopáticas de uma decisão livre e totalmente cabível a uma felicidade relativamente próxima? Enquanto me questiono atravessando a rua, eu mesma me respondo. Vejo o farmacêutico entrando no bar e concluo: porque falar é fácil.

24 de maio de 2012

Se é possível descrever...

O Medina do Los Hermanos propôs no seu blog um modo dos fãs compartilharem suas emoções antes, durante e depois do show dos caras. Então, decidi arriscar (ao meu modo) e também compartilhar com vocês. As partes em negrito são as frases obrigatórias durante o texto.
Em nome do Los Hermanos, hoje o Sentimentolices brinca de ser feliz (e pinta o nariz) pra palavrear o sentimento da autora desse blog depois do show mais esperado da sua vida em Belo Horizonte. 


Belo Horizonte, 19 de maio de 2012


Na verdade, pra mim esse show começou muito antes do que quando de fato ocorreu, mais precisamente quando eu (agradecidamente) nasci numa família de músicos. Certo dia, a banda do meu pai, estilo "toca de tudo" recebeu um pedido do público pra que tocassem "Anna Júlia" num dos shows. Sou do interior de Minas e quando aparecia algo diferente do habitual o questionamento era sempre esse: essa música já chegou aqui? No ano de 2000, eu com meus 9 anos de idade, conheci o famoso pedido. Lembro da música, enfim, ser tocada nos shows e do refrão entusiasta que levava todo mundo a cantar junto (até George Harrison). Confesso que o tempo passou e esqueci quem era Anna Júlia, por isso mesmo o show começou antes mesmo de eu imaginar. Por sorte, em 2004, tive a Ventura de me tornar mais próxima dos Hermanos. Foi quando, já mais velha, depois de doses cavalares de musicalidade dentro de casa, aprendi o valor de harmonia, letra e sentimento. Me apaixonei, essa é a verdade. Mas com 14 anos de idade, dizer "mãe, me deixar entrar num ônibus e ir atrás desses tais de Los Hermanos" era pedir pra ganhar não. O tempo passou, as músicas enfiaram na cabeça a ponto de cantar os metais da banda junto com o cd (algo típico dos fãs). E em 2007, eu, numa cidade pequena, ganhei um prolongamento nas reticências da espera por ouvi-los ao vivo. O fim da banda gerou a busca por covers em Juiz de Fora, Belo Horizonte, Uberaba e só alimentava o sonho de poder me emocionar com um show de verdade. Até que no dia 15 de novembro li no blog do Medina "2012 será o ano de turnê do Los Hermanos". Os olhos brilharam e desde então o tempo voou. Esperar pela meia-noite do dia da venda de ingressos foi como esperar pelo DVD do "Cine Iris" de presente de aniversário. Ingresso garantido, passagem comprada, todas as músicas decoradas  e então finalmente era chegado o dia do show. Assim que entrei no local, observando a plateia, logo percebi que aquela noite seria Sentimental. Depois de subir as escadas, que davam pro segundo andar do Chevrolet Hall, estar ali era como entrar num banho depois de um dia cansado. Era se iluminar com os sorrisos dos outros, que se misturavam aos seus, que embalavam os gritos de espera, que tomavam conta das batidas do coração. Estar ali era ser tomada por uma vontade de não sair antes mesmo de começar. Sem me preocupar se eu estava longe de ver a barba do Camelo, as danças do Amarante, o sorriso do Medina, a seriedade do Barba... Sem me preocupar se eu estava amassada em meio a tantos corpos, estar ali era simplesmente esperar por um sonho. Após alguma espera, a expectativa só fazia aumentar, até que finalmente a banda surgiu no palco e o que aconteceu deste momento em diante poderia ser descrito como permitir uma graça que só a música nos dá. Não conseguia ouvir o meu grito, que virou um grito único de milhares de pessoas. Descobri o poder do corpo humano por não ter meus dois pulmões expulsos do corpo junto com um coração que acelerava a cada "uh, los hermanos, uh los hermanos". Era como se todos pedissem pra que tocassem logo, depois de anos de espera. Era como esperar um presente... Logo quando começaram a soar os primeiros acordes da música de abertura, a impressão era a de que aquele lugar havia se transformado em um sonho, enfim, palpável... Enfim, audível. Eram sonhos reunidos e isso dava ao solo de "O vencedor" uma impressão de hino nacional da nação Hermânica (pra não dizer, Hermaníaca). "Olha lá" nunca teve tanto peso no meu peito. Bateu e saiu pelos olhos. Os versos seguintes foram acompanhados de um choro sincero, um choro agradecido. Não um choro vinculado somente à imagem de tê-los ali, mas também vinculado ao som, as guitarras, as batidas, ao teclado, aos metais, ao que eu chamo de prazer auditivo. Lembro de olhar pra minha irmã numa passada de olhos e vê-la emocionada ao me ver ali, totalmente entregue a um encontro esperado por anos. Nos segundos de solo, pude lembrar de nós duas brincando no carro durante uma viagem "fala um show que você sonhou ir". E enquanto ela dizia artistas mortos, eu respondia: Los Hermanos. Vivos e únicos, porém parados. Enquanto as lágrimas desciam paradoxalmente, o sorriso abria e o show foi seguindo seu curso, tendo o repertório passado por todos os discos lançados. Agora, sem dúvida, o melhor momento da noite foi quando ouvi Primeiro Andar. Como orar durante as noites, o meu reflexo foi fechar os olhos e esquecer tudo que existia a minha volta. Mesmo estando no segundo andar do Chevrolet Hall, consegui conhecer algum terceiro andar que fica por aí. Me enchi de todo o sentimento e acho que refleti tudo que ela significa pra mim. Quando perdi meu pai, o mesmo que me ensinou tudo que eu sei da música, Primeiro Andar era um mantra pra que meus dias fossem recheados de coisas boas e que assim eu contasse pra ele, em algum lugar, "quem vai saber?". Assim como acho que agora, escrevo e conto o que eu vi pra ele também. Acho que ele me viu, guardando um sonho bom, vivendo esse sonho. E quando tudo parecia estar terminado, ainda havia o bis e "Tenha Dó" tomou conta das minhas pernas e braços, me tornando mais uma "Bubu dos trompetes" que se fez ali. Lembrei de quando eu dançava essa em casa, sozinha e foi como imaginar tantos outros que deviam fazer o mesmo podendo dividir comigo aquele momento. Euforia total do primeiro acorde, passando pelo refrão até o "laraiá" final. Depois de quase 30 músicas, "Pierrot" sinalizou o fim da festa. As luzes se apagaram e a turnê seguiu adiante, para outras cidades. No futuro, quando for contar as pessoas como foi o show, vou dizer que essa noite será sempre lembrada por ter sido a demonstração da alegria simples que é estar diante da realização de um sonho. Cada minuto, cada momento, teve um tom especial, um dom de saber envaidecer por se saber que ouvi-los ao vivo era tão melhor do que qualquer sentimento imaginado. De modo engraçado, quando os músicos deixaram o palco com o final do show, soltaram aquela música "Não se Vá" da Jane e Herondy e nunca cantei com tanto apreço algo que queria dizer pra cada um deles: "não se vá, não me abandone por favor, pois sem você vou ficar louco". Não sei se louca de saudade, não sei se louca de vontade de dizer "obrigada" repetidas vezes ou de ver muitos outros shows, ouvir muitas outras músicas, mas sei que sempre louca pelos meus Hermanos.